O Pressão Baixa

quarta-feira, 5 de agosto de 2026

Parecia uma dessas raridades que a vida guarda para quando já desistimos de procurar. Luso-canadense, falava francês, gentil, educado e reservado numa medida que, no começo, parecia encantadora. Daquelas pessoas que parecem oferecer um porto seguro depois de uma sucessão de tempestades.

Houve dias em que conversávamos até adormecer. A troca era leve, curiosa e constante. Parecia promissora. Mas bastou o nosso encontro carnal para que alguma coisa mudasse de lugar. Ou talvez saísse completamente do lugar.

A reserva que antes parecia charme transformou-se num silêncio difícil de atravessar.

As mensagens reduziram-se a um protocolar "olá, bom dia" e "boa noite". Quando perguntava como tinha sido o dia, recebia um lacónico "tranquilo".

Tranquilo?

Mas... e o resto?

Quero saber se acordaste atrasado, se queimaste a torrada, se o trânsito estava impossível, se o teu chefe apareceu de mau humor, se houve alguma fofoca no trabalho ou se precisaste tomar cinquenta cafezinhos para sobreviver ao expediente. São justamente essas pequenas inutilidades que fazem alguém deixar de ser apenas uma fotografia bonita e virar uma pessoa de verdade.

Na tentativa de explicar o que eu queria dizer, descrevi o meu próprio dia. Um texto longo, cheio de detalhes, pequenas tragédias burocráticas, momentos engraçados e pensamentos aleatórios. A resposta veio rápida:

— Escreves demais.

Ri por dentro.

Claro que escrevo.

Sou escritora.

Escrever é como respiro.

Logo depois veio outra frase, aparentemente sem relação com a conversa:

— Não quero um compromisso sério neste momento da minha vida.

Mas... quem falou em compromisso?

Eu própria havia dito exatamente o mesmo. Até brinquei que poderíamos ser excelentes amigos coloridos. Não estava a pedir promessas, alianças ou planos para o Natal. Estava apenas à procura de alguém que tivesse sangue a correr nas veias.

Foi ali que alguma coisa se quebrou.

Não houve discussão. Não houve drama. Apenas aquele instante silencioso em que percebemos que estamos a remar sozinhos.

Hoje já nem faço questão de mandar "bom dia".

A minha vida anda tão caótica, trabalhando de domingo a domingo, que não tenho tempo — nem energia — para conversas mornas, respostas automáticas e presenças que parecem ausências.

Quero emoção.

Quero sentir o sangue quente a correr nas veias.

Quero o frio na barriga.

As tais borboletas.

Quero alguém que conte histórias, que ria das próprias desgraças, que divida comigo as pequenas banalidades do quotidiano como quem oferece um pedaço da própria vida.

A timidez e a reserva que pareciam tão fofas no início acabaram por construir um abismo entre nós.

Não um abismo impossível de atravessar.

Mas um daqueles que exigem renúncia.

E eu aprendi, da maneira mais dolorosa possível, que nunca mais vou abrir mão de mim para manter alguém por perto.

Entre insistir numa relação de mão única e recolher-me, escolho sempre a segunda opção.

Descobri que existem pessoas que acalmam. Outras que incendeiam.

O problema é que eu nunca fui feita para morar no morno.

Então deixo o "Pressão Baixa" seguir o seu caminho.

Eu continuo à espera de alguém que faça o meu coração esquecer, por alguns segundos, como se respira.

Passaporte do Amor: Celibato Voluntário (e suas exceções)

domingo, 2 de agosto de 2026

Fechei a porta do Passaporte do Amor e joguei a chave no Tejo. Descobri que a energia que eu gastava com encontros medíocres constrói impérios quando canalizada para o meu próprio umbigo.

Deletar as aplicações de encontros não foi um ato de drama ou desespero; foi um ato puro de higienização mental. Cansa tentar garimpar alguma humanidade no meio de uma feira livre de egos insuflados, onde homens adultos operam na lógica do fast-food emocional: querem o máximo de entrega pelo mínimo de esforço. Pedem tudo, oferecem o nada, somem depois de conseguir o que queriam ou levam-te para o meio do nada num domingo à noite achando que isso é um gesto de charme. Haja paciência, medicação e terapia para aguentar tanto amadorismo fantasiado de masculinidade.

Cansada de me desdobrar para caber na expetativa rasa de quem só quer consumir a minha energia, decidi fechar a loja. O celibato voluntário surgiu não como uma punição, mas como um refúgio. Quando tu cortas o ruído dos pretendentes de ocasião, o silêncio que fica é extraordinariamente produtivo. A matemática é simples: o tempo e a cabeça que eu gastava a descodificar mensagens ambíguas e desilusões agendadas agora pagam as minhas contas, temperam o meu peito de frango com jardineira, limpam a minha casa e constroem o caminho para a minha varanda.

Isso significa que me tornei uma freira amargurada? Longe disso. Significa apenas que a fasquia subiu tanto que só passa quem tem credencial de respeito.

Porque a vida, na sua ironia, gosta de guardar raras e preciosas exceções. O canadense fofo que sabe o que é delicadeza, ou o americano gentil que compreende o valor de uma conversa inteligente sem pressas nem segundas intenções. Homens que não tentam sugar a tua força, mas que trazem um respiro de cavalheirismo num mundo que parece ter esquecido o que é isso. Para esses pouquíssimos — e apenas quando me aprouver —, ainda há uma réstia de espaço. Não por necessidade, mas por livre escolha de quem aprendeu a gostar demais da própria companhia.

No fim das contas, a abundância e o prazer não dependem da aprovação de ninguém. Resolve-se o corpo no próprio quarto, investe-se a alma nos próprios sonhos, e guarda-se o coração para quem realmente sabe estar à altura. 

O resto? O resto é só ruído de fundo. E eu já não tenho tempo a perder com ruído. Como bem diz Shakira, "mulheres não choram, mulheres faturam"! 

A Engenharia dos Sete Euros (ou Asas de Frango no Cais do Sodré)

terça-feira, 28 de julho de 2026

Às nove da manhã, o meu mundo valia exatamente sete euros. Sete moedas. O tipo de número que não dá nem para um pavor decente, quanto mais para atravessar sete dias de vida em Lisboa. Olhei para a conta e senti aquele chão a abrir-se sob os pés, aquele aperto no peito de quem se sente sozinha, ilhada, sem ter a quem pedir socorro. A casa onde durmo parecia subitamente mais fria, o ar mais pesado, a cozinha: um território hostil onde eu nem sequer tinha vontade de acender o fogão.

A mente entra em pânico, mas o cérebro de quem já cruzou um oceano tem os seus próprios truques. Chamam-lhe neuroplasticidade. Eu chamo-lhe instinto de sobrevivência pura.

Em vez de chorar sobre os sete euros, sentei-me e virei engenheira de cozinha de emergência no site do Pingo Doce. Dois pacotes de fusilli com cogumelo porcini a 1,39€. Uma lata de atum esquecida no armário. A jardineira de legumes congelados salteada na manteiga para dar corpo, dignidade e cor. Pronto: quatro almoços garantidos por menos de três euros. A matemática do desespero transformou-se numa vitória de sessenta e nove cêntimos por refeição. Ninguém no trabalho saberia que aquele prato bonito era, na verdade, um milagre de aritmética.

E então, o dia deu a sua volta de montanha-russa.

O universo tem uma forma estranha de responder a quem não se entrega. Cem reais que entram na conta. Uma limpeza de vinte e sete euros fechada para sábado, recorrente, na raça. Três empregos. O corpo cansa só de pensar na maratona que aí vem, mas a alma ganha um oxigénio que dinheiro nenhum compra: a certeza de que a tempestade é temporária e de que o meu futuro está a ser construído, moeda a moeda.

Agora, estou aqui no Cais do Sodré. O vento do Tejo bate na cara e apaga a poeira de um dia que tentou me derrubar e falhou miseravelmente. Pego um Somersby de maçã no Pingo Doce junto com as asinhas de frango apimentadas. Não é gasto, é celebração. É o prémio de quem começou o dia no fundo do poço e termina a olhar para o rio, de cabeça erguida, com o estômago cheio de dignidade e o coração cheio de futuro.

Até aos sete euros eu sobrevivi. Daqui para a frente, eu conquisto.

Sobre Pontes, Pinheiros e o Gollum

domingo, 26 de julho de 2026

Nem um fio de ideia... E ainda tenho 30 minutos de viagem de autocarro até à minha consulta psiquiátrica.

Passo pela Ponte 25 de Abril e penso: caralho, eu moro mesmo em Lisboa! Nunca vou deixar de ficar estupefata ao cruzar este rio.

Vejo pinheiros pelo caminho, vários, espetados nos canteiros da estrada, e lembro-me da minha casa em Rosário Oeste. Da minha mãe a cultivar com amor um pinheirinho que nunca cresceu muito — chegou, no máximo, à altura dos meus nove anos, quando mudei para Cuiabá. Deu-me uma vontade súbita de passear pela memory lane e abrir finalmente aquela caixa de fotos antigas que trouxe comigo na mala. Pensei até numa ideia de foto que pode dar um bom Reels.

Toca Florence no fone. Lembro-me de não ter conseguido o credenciamento de imprensa para o show, mas não vou desistir. Esta carteira internacional de jornalista ainda me vai levar a algum lugar. É como o Gollum no Senhor dos Anéis: Frodo e Sam queriam matá-lo logo no início do primeiro livro, mas o Gandalf avisou que ele ainda tinha um papel a desempenhar — e teve.

 A minha carteira da IFJ também tem. E eu também.



Meu próprio Comer, Rezar e Amar nunca coube num enxoval

sexta-feira, 24 de julho de 2026


Acho que nunca tive vontade de ter filhos...

Vendo uma foto de mesversário do filho da minha prima logo depois de ter ficado feliz de ter encontrado uma salada de bacon com nozes por € 2.30, meio que me dei conta que embora tenha muitos perrengues - as vezes a contar cêntimos - eu sou muito feliz com minha vida aqui na Europa.

Veja bem, Comer, Rezar e Amar se tornou o meu filme favorito. Via e revia inumeras vezes porque sentia que era aquilo que eu queria para minha vida, ainda mais sendo escritora!

A minha mala embaixo da cama, aquela dos sonhos que elas mencionam no filme, não tinha nada relacionado a bebês, ou coisas de noiva, família. Mas sim cartões postais, mapas e jornais de lugares que sabia que iria conhecer um dia.

Sempre sonhei em viajar e conhecer o mundo!

Vejo mamães com seus bebes e crianças no Instagram e, não me tocam como um vídeo vendo a Torre Eiffel primeira vez.

Veja bem, acho maravilhoso quem se encontra na maternidade, mas nunca me senti como alguém que gestaria, ou teria uma família.

E isso em absoluto não é triste e nem vazio, é apenas uma escolha diferente do caminho que todos consideram "natural" para uma mulher.

Uma amiga me disse algo que mexeu comigo. Que ela se lembra que desde mais jovem eu era conectada com o mundo lá fora mesmo estando em Cuiabá-MT.

Seja por filmes, pelos produtos que eu importava em uma época que os e-comerces ainda engatinhavam. Comprava dos Estados Unidos, Inglaterra, França, Coréia, China e Japão, isso tudo há 20 anos atrás.

E essa mesma amiga me disse que comigo, ela aprendeu a sonhar com um mundo além do nosso bairro, mesmo sem sair dele. Coisa que ela jamais pensou ser possível.

Me sinto orgulhosa da minha história e de onde cheguei e ainda irei chegar com essa cabecinha avoada e sonhadora.

Parte 2: Coisas que só uma mulher entende

terça-feira, 21 de julho de 2026

Há um idioma que não se ensina nos dicionários, que não exige passaporte e que se fala em silêncio absoluto, algures entre o cansaço do fim do dia e o espelho da casa de banho. É o dialeto das mulheres. Uma espécie de código de sobrevivência e de beleza que corre nas nossas veias e que nenhuma inteligência artificial ou lógica puramente masculina conseguirá alguma vez traduzir por completo.

Só uma mulher entende o peso exato e o alívio profundo de soltar o soutien depois de dez horas de rua. Aquela sensação de que o corpo, finalmente, voltou a pertencer-nos, e que o mundo lá fora já não nos pode cobrar mais nenhum centímetro de postura.

Só uma mulher entende o que é passar uma semana inteira a pão e iogurte de cêntimos do supermercado, a engolir choros e a contar moedas, e, de repente, gastar o que quase não tem num batom vermelho ou num perfume caro. E não é futilidade — os homens que não se atrevam a chamar-lhe isso. É dignidade. É olhar para o espelho no meio da tempestade da imigração, da solidão ou da ansiedade, passar aquela cor nos lábios e dizer ao mundo: "Podes bater com a força que quiseres, porque eu ainda estou aqui e continuo linda." É usar o aroma como uma armadura invisible.

Só nós sabemos ler a arquitetura de um silêncio. Quando um homem não responde a uma mensagem, ele está apenas a ser homem — distraído, cansado, focado noutra coisa qualquer. Mas quando nós olhamos para aquele ecrã mudo, o nosso cérebro monta uma ópera inteira em três atos. Culpamo-nos, recalculamos a rota, analisamos cada palavra dita na véspera, até percebermos — depois de muita solitude e de um prato de massa bem quente — que o nosso valor nunca dependeu do tempo de resposta de ninguém. O sol não corre atrás da sombra. Nós sabemos disso, mesmo quando o coração teima em esquecer.


Só uma mulher entende a beleza agridoce de transformar o vazio em solitude. De trocar o barulho de um copo partilhado num cais qualquer pelo aconchego de uma panela de água a ferver na cozinha de casa, a preparar aquela comfy food que abraça o estômago e acalma a alma. Há uma santidade quase mística no ato de cozinhar para si mesma quando se está sozinha num país estrangeiro. É uma missa particular, um pacto de amor-próprio.

Entendemo-nos no desapego. No momento em que deitamos fora as pulseiras, as memórias ou as amizades que já não nos servem, pedindo perdão aos altares da nossa história, mas sabendo que a nossa pele precisa de estar limpa para os novos recomeços. Entendemo-nos na luta contra a balança, na contagem da glicose, na gestão das hormonas que nos fazem rir e chorar no espaço de cinco minutos, e na capacidade quase sobre-humana de acordar no dia seguinte, pôr os pés no chão com dores nas pernas, e ir limpar três Airbnbs com o sorriso de quem vai conquistar a Europa.

Porque, no fundo, ser mulher é isto. É carregar uma mala cheia de sonhos — alguns que se realizam em Paris, outros que se escrevem em livros, e outros que se vivem na próxima paragem de autocarro —, saber exatamente o tamanho da nossa fragilidade e, ainda assim, escolher ser a nossa própria fortaleza.

Quem olhar de fora verá apenas uma mulher a caminhar na rua. Mas outra mulher, ao cruzar-se com ela, lerá nos olhos o livro inteiro. E sorrirá em silêncio. Porque só nós sabemos o quanto custa, e o quanto vale, ser quem somos.