Mostrando postagens com marcador Lifestyle. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Lifestyle. Mostrar todas as postagens

A Falsa Companhia e a Ilha de Si Mesma

quarta-feira, 9 de setembro de 2026

Emigrar é, antes de tudo, um exercício diário de desamparo. Quando desembarcamos num país diferente com a mala cheia de sonhos e o peito aberto para o mundo, trazemos conosco uma fome silenciosa e urgente: a necessidade desperadoramente humana de pertencimento. Queremos uma voz familiar, um riso partilhado no fim do dia, um abraço que nos diga que não estamos sozinhos no meio da multidão.

Nessa busca por calor humano, a solidão torna-se uma lente distorcida. Ela nos faz confundir presença com afeto e barulho com companhia. Por medo de encarar o silêncio do quarto ou o peso dos nossos próprios sentimentos — com todas as suas oscilações, picos de euforia e vales de tristeza —, abrimos as portas da nossa vida para quem passa sem intenção de ficar. Apegar-mo-nos ao raso, ao caos alheio, à aprovação de estranhos que mal compreendem a densidade da nossa história. Oferecemos a nossa transparência e a nossa verdade a quem busca apenas a compostura da superfície, e aceitamos a ausência daqueles em quem depositamos a nossa gratidão.

Passamos o passaporte do amor na expetativa de que o outro nos dê a cidadania do seu afeto. E, quando recebemos a rejeição ou o silêncio frio do desinteresse, a dor não vem do outro; vem do reencontro forçado com o vazio que tentávamos evitar.

A ressaca da alma é sempre mais dolorosa do que a do corpo. Ela nos mostra o preço alto de nos afastarmos dos nossos próprios altares. A cada copo erguido para anestesiar a exaustão, a cada conversa jogada fora para preencher o tempo, deixamos um pedaço do nosso brilho pelo caminho. Adiamos os nossos livros, os nossos projetos, o nosso sustento e os nossos passos em direção à independência.

Mas a solidão do imigrante também guarda uma força soberana e sagrada: a capacidade do retorno.

Decidir fechar as portas para o desgaste não é um ato de derrota, é um manifesto de sobrevivência. É compreender que a única estrutura emocional capaz de sustentar os nossos sonhos é a que construímos por dentro. Dizer chega aos encontros vazios, às companhias ruidosas que nos roubam a paz e aos silêncios que nos diminuem é o primeiro passo para limpar o terreno.

Não precisamos da validação de quem não sabe o peso da nossa caminhada. O nosso foco volta para o chão sob os nossos pés: para a ferramenta de trabalho que precisamos conquistar, para as páginas dos livros que ainda vamos publicar, para a escrita que liberta e para a dignidade de quem constrói o próprio destino com as próprias mãos.

Longe da barulheira do mundo e das falsas companhias, a luz que parecia apagada volta a acender-se. A maior viagem do imigrante não é a que cruza o oceano; é a jornada de volta para si mesmo.

Do plástico às pedras preciosas: as Jornadas Europeias do Património chegam ao Tesouro Real

sábado, 5 de setembro de 2026

Garrafas de plástico transformadas em pregadeiras, uma visita sobre a sustentabilidade na exploração de pedras preciosas e um percurso pela história e gestão do próprio museu. Estas são as propostas do Museu Tesouro Real para as Jornadas Europeias do Património, que se realizam em setembro sob o mote “Reviver, resistir e reinventar”.

O programa começa a 19 de setembro com o workshop “Nobre Renascer: Do Plástico à Joia”. Conduzida por Cristina Nuño, vencedora do concurso de joalharia Ecos Reais, a oficina desafia os participantes a transformar garrafas de plástico PET em pregadeiras inspiradas no universo marinho. Entre medusas e corais, um material do quotidiano ganha uma nova vida e aproxima a joalharia contemporânea das preocupações ambientais.

No mesmo fim de semana, a visita orientada “Brilho Sustentável” propõe um percurso diferente pelas joias, pelo ouro e pela prata do Tesouro Real. Nos dias 19 e 20 de setembro, o público descobre algumas das cerca de 22 mil pedras preciosas da coleção e acompanha a história das suas origens, características e valor. A visita liga ainda estes minerais ao presente e mostra como muitos são hoje essenciais à tecnologia e à transição ecológica e lançando uma reflexão sobre o uso responsável dos recursos naturais.

As Jornadas prolongam-se a 26 e 27 de setembro com a visita temática “O Museu Tesouro Real como caso singular na Gestão do Património Português”. Mais do que apresentar joias e insígnias, o percurso revela as decisões políticas, jurídicas e patrimoniais que marcaram o destino da coleção desde a Implantação da República. Da dispersão e recuperação de diferentes núcleos à criação do museu no Palácio Nacional da Ajuda, a visita mostra como a colaboração entre entidades públicas e privadas tornou acessível um património de excecional importância nacional.

Antes das Jornadas, setembro recupera outra figura decisiva da monarquia portuguesa. Nos dias 5 e 6, a visita especial “D. Carlota Joaquina e as Redes de Poder na Monarquia” acompanha a trajetória da rainha entre alianças ibéricas, intrigas palacianas e oposição ao constitucionalismo. Integrada nas comemorações dos 200 anos das exéquias de D. João VI, a proposta percorre os bastidores de um período marcado por ambição, lealdade e rutura política.

Ao longo do mês, o museu mantém as visitas orientadas regulares à coleção, em português e inglês. No dia 12 de setembro, segundo sábado do mês, a visita em português é gratuita mediante aquisição do bilhete do museu. Sob a gestão da Associação Turismo de Lisboa, o Museu Tesouro Real está aberto todos os dias, das 10h00 às 19h00 (última entrada às 18h00).

Saiba mais em: Museu Tesouro Real | Agenda

Mais uma noite de K-Beauty: vou testar a Medicube Kojic Acid Turmeric Night Wrapping Mask

terça-feira, 1 de setembro de 2026



Minha imersão no mundo dos cosméticos coreanos continua. 🇰🇷✨

Depois de começar a explorar essa avalanche de produtos, ingredientes e promessas que vêm da Coreia do Sul, resolvi colocar mais um queridinho à prova: a Medicube Kojic Acid Turmeric Night Wrapping Mask.

E confesso que fiquei especialmente curiosa com esta.

Primeiro porque ela é uma máscara noturna. Ou seja: a ideia é passar no rosto antes de dormir, deixar agir durante a noite e simplesmente lavar pela manhã.

A beleza trabalhando enquanto a gente dorme?
Olha… já ganhou minha atenção. 😂

A promessa me deixou curiosa

A proposta é cuidar daquela pele que parece meio sem graça, cansada e com textura irregular, ajudando a deixá-la mais luminosa, hidratada, macia e uniforme.

E a fórmula reúne uma verdadeira seleção de ingredientes conhecidos no universo do skincare:

ácido kójico, cúrcuma, vitamina C, niacinamida, retinol, vitamina E, colagénio, adenosina, alantoína e glicerina.

Sim, tem bastante coisa nesse potinho.

E algumas delas são particularmente interessantes quando pensamos em luminosidade e textura da pele.

A vitamina C é conhecida pela ação antioxidante e por ajudar na aparência de uma pele mais luminosa e uniforme.

A niacinamida é uma das minhas queridinhas entre os ingredientes de skincare porque trabalha em várias frentes: ajuda na barreira da pele, na hidratação e na aparência de manchas e textura irregular.

A cúrcuma entra na fórmula pela sua ação antioxidante e pelo potencial calmante, além da proposta de ajudar a uniformizar o tom.

E temos ainda o retinol, ingrediente bastante conhecido quando o assunto é textura, linhas finas e sinais de envelhecimento.

Ou seja: a promessa aqui não é apenas acordar com a pele hidratada.

É acordar com uma pele que pareça mais luminosa, macia, uniforme e descansada.

Agora quero descobrir se ela consegue cumprir tudo isso.

E é aí que começa o teste

Uma coisa que estou gostando nessa minha experiência com o K-Beauty é justamente poder olhar para esses produtos com curiosidade, mas também com um pouquinho de desconfiança.

Porque promessa bonita toda marca tem.

O que me interessa é saber o que acontece depois que o produto sai da embalagem e vai para a minha pele.

Vou testar a Medicube Kojic Acid Turmeric Night Wrapping Mask e observar principalmente a hidratação, o toque, a luminosidade e a aparência geral da pele depois do uso contínuo.

E, claro, quero saber se aquela história de acordar com a pele linda no dia seguinte é realidade…

ou apenas mais uma excelente história de marketing coreano. 👀

Por enquanto, minha expectativa está bem alta.

Agora é colocar a máscara para dormir comigo.

E descobrir quem vai acordar mais bonita no dia seguinte: eu ou ela. 😂

Continua a acompanhar esta minha incursão pelo K-Beauty aqui no Janaland. Ainda temos muitos potinhos para abrir — e muitas promessas para colocar à prova.

Mais uma parada na minha viagem pelo K-Beauty: vou testar o Medicube PDRN Collagen Glow Jelly Serum

domingo, 30 de agosto de 2026


Minha imersão no universo dos cosméticos asiáticos continua — e, pelo visto, ainda estamos muito longe de terminar essa viagem. 😂🇰🇷

Depois de experimentar produtos com ingredientes que até pouco tempo atrás pareciam nomes de ficção científica, chegou a vez de testar mais uma estrela do skincare coreano: o Medicube PDRN Collagen Glow Jelly Serum.

E, confesso, a primeira coisa que me conquistou foi o nome.

Glow. Jelly. Collagen. PDRN.

Parece que alguém pegou todas as palavras que fazem uma apaixonada por skincare parar diante de uma prateleira e colocou numa única embalagem.

Mas será que funciona?

É isso que eu quero descobrir.

PDRN de novo?

Sim!

Depois de encontrar o PDRN no meu tônico da Numbuzin, ele aparece novamente na minha jornada pelo K-Beauty.

E talvez essa seja uma das coisas mais interessantes dessa experiência: começar a perceber quais ingredientes estão realmente dominando o skincare asiático.

O PDRN, derivado de pequenos fragmentos de DNA, virou um dos grandes protagonistas dessa nova geração de cosméticos coreanos. Nos produtos de skincare, aparece associado a propostas de pele mais hidratada, revitalizada, firme e com aparência saudável.

Mas aqui faço aquela ressalva que gosto de fazer no Janaland: cosmético não é procedimento dermatológico.

O fato de um ingrediente ser usado em tratamentos profissionais não significa que passar um sérum com esse ingrediente em casa vá produzir exatamente o mesmo resultado.

Então, nada de milagres.

Vamos observar o que acontece de verdade na pele.

E o colagénio?

Esse sérum também aposta forte no colagénio.

Segundo a Medicube, a fórmula tem cerca de 65% de água de colagénio, justamente para ajudar na hidratação e naquela aparência de pele mais preenchida e viçosa.

E tem também 5% de niacinamida, ingrediente que já é um velho conhecido do skincare e que aparece aqui com a proposta de melhorar a aparência do tom e da textura da pele.

Traduzindo tudo para a língua que nós realmente falamos:

a promessa é acordar a pele cansada.

Mais hidratação.

Mais luminosidade.

Mais viço.

Mais aquela aparência de pele lisinha e preenchida que os coreanos chamam de glass skin.

E, sinceramente?

É exatamente isso que estou esperando encontrar.

A textura também me deixou curiosa

O nome Jelly Serum não está ali por acaso.

A Medicube descreve a textura como uma espécie de gelatina aquosa leve, que derrete na pele e é absorvida rapidamente, deixando uma sensação refrescante.

E isso me interessa muito.

Porque uma coisa é ter um sérum cheio de ingredientes interessantes.

Outra é ele ser agradável de usar.

Eu quero aquele momento gostoso de skincare em que você passa o produto e pensa:

“Minha pele está bebendo isso aqui.”

😂

Agora começa o verdadeiro teste

A marca apresenta resultados de testes clínicos indicando aumento de luminosidade e hidratação após uma utilização, mas também ressalva que os resultados podem variar de pessoa para pessoa.

E é justamente aí que eu entro.

Porque não quero simplesmente repetir a promessa da embalagem.

Quero testar.

Quero sentir a textura.

Quero observar a hidratação.

Quero ver se a pele realmente fica mais luminosa.

Quero descobrir como ele se comporta ao longo dos dias.

E, principalmente, quero saber se esse tal glow coreano é capaz de conquistar uma brasileira que já testou uma quantidade nada razoável de cosméticos ao longo da vida.

😂

Por enquanto, minha expectativa está altíssima.

Porque se PDRN + colagénio + niacinamida + textura jelly entregarem tudo o que prometem, este pequeno frasco pode se tornar um dos meus favoritos dessa viagem pelo K-Beauty.

Agora é começar o teste.

Próxima parada: pele de vidro ou apenas mais um bonito golpe do marketing coreano?

Fiquem por aqui.

A investigação Janaland continua. 🔎✨

Pressão Baixa, Parte 2: O Retorno de Quem Nunca Teve Pressa

quinta-feira, 27 de agosto de 2026

Hoje foi um dia especial, daqueles de comemoração pura, por ter finalmente recebido a minha Autorização de Residência!

Entre lágrimas — de felicidade — e chamadas para o Brasil para contar a boa-nova, eis que uma notificação na tela me causou estranheza: o Pressão Baixa ressurgiu das cinzas onde estava enterrado e mandou um singelo “Oi”.

Pensei imediatamente em ignorar — afinal, estou em abstinência de homens que sugam a minha energia —, mas dei conversa. Afinal, faz tempo que não troco palavras com o sexo oposto e ele, há que se reconhecer, não é do tipo indecente que envia fotos indesejadas. Pelo contrário: é um gentleman.

Só acho que o atropelei com o meu excesso de emoção e ele resolveu dar uns vinte passos para trás.

Muito lento. Muito sem emoção. Muito… pressão baixa!

Porque diabos eu ainda respondo quando você volta?

Falei que estava com saudades — sempre mando essa, tsc, tsc, tsc — e que estava imaginando quando nos veríamos novamente. Disse que domingo eu estava livre. E ele?

Ah, curtindo férias — de novo —, sei lá em qual buraco.

O que acontece com esses portugueses e essas férias de três meses? Não sabia que aqui existia a versão anual da Licença-Prêmio do Brasil.

Enfim, disse a ele que só tenho o domingo livre e que, se Deus e o Universo permitirem, nos veremos daqui a uma semana e meia.

Eu digo “Pressão Baixa” e não é à toa!

Homem lerdo.

O que esperar desse encontro?

Uns beijos gostosos, um sexo meia-boca e só.

Cansada dessa merda, honestamente.

Por isso, decidi focar em mim: aulas semanais de inglês com uma professora que não arranha uma palavra de português, aulas de francês, Pilates, cuidar do blog, finalizar os meus livros e desenhar os roteiros das viagens que quero fazer.

Dei-me conta de que, embora eu seja uma pessoa carente, esses afetos volúveis não me preenchem.

Eu quero muito mais do que isso.

E ainda não encontrei ninguém disposto a entregar.

E eu?

Estou exausta de cair nos braços errados enquanto procuro os certos.

Se é que eles existem.

Talvez existam. Talvez não.

Mas, pela primeira vez, não tenho tanta pressa para descobrir.

Tenho uma vida inteira para construir enquanto eles não aparecem.

Entre Lágrimas e Respostas: O Dia Em Que Lisboa Me Disse "Sim"

segunda-feira, 24 de agosto de 2026

Dias de imigração têm um peso diferente. Não é só a rotina de lavar a roupa, bater o ponto no trabalho, medir o cansaço nas pernas ou procurar um teto que não nos sufoque entre sótãos e águas-furtadas. É a dor surda do fuso horário. Há dias em que a distância não é contada em quilómetros, mas em lágrimas que caem sem pedir licença no silêncio do quarto.

Ontem o calendário pesava. Era aniversário da minha mãe e do Pedro Lucas, o amor da minha vida, o meu único sobrinho que soprava oito velinhas do outro lado do Atlântico. Chorei de saudade, de ausência, daquela solidão que só quem atravessa o oceano para refazer a vida conhece. Chorei por não estar lá a dar o abraço, por ver a vida dos meus a acontecer através da tela do celular.

E é nesses dias de peito aberto que o destino resolve mostrar que nada é por acaso.

No final da tarde, entre o cansaço do trabalho e os restos do choro, chegou o aviso dos CTT. Um papel modesto, mas carregado de gravidade: correspondência da AIMA guardada na agência à minha espera.

Quem emigra sabe que aquele papel registado é muito mais do que celulose e tinta. É o anúncio do fim da espera, o soco no estômago da ansiedade de quem vive há meses com o coração na boca, a olhar para o processo parado numa tela. O Universo não erra no timing. Naquele dia exato de tanta dor e saudade, a vida enviou-me o sinal mais claro de que este é, sim, o meu lugar. Que cada renúncia, cada noitada de escrita no blog e cada caminhada à beira do Tejo tinham um propósito.

Amanhã cedo a agência dos correios abre portas. Mas a verdade é que a liberdade já começou hoje, escrita numa folha de aviso amarelada que trouxe o sol de volta a Lisboa.

Só Deus sabe o quanto orei e pedi aos céus por um sinal de que eu havia feito a escolha certa em perseguir esse sonho louco, longe da minha família, do que me é conhecido, e, desbravar esse mundo imenso que sempre achei que nunca seria para mim. 

Receber esse documento, essa Autorização de Residência, tem um peso enorme na minha vida, na sensação de pertencimento a essa terra que tem me acolhido. 

Os dias não têm sido fáceis, são de muita luta, trabalho, cansaço e lágrimas, mas as recompensas são na mesma medida. Hoje posso dizer que sou feliz, finalmente. Aquela felicidade genuína que somente a independência te trás. 

Hoje só quero agradecer a Deus, Nossa Senhora do Carmo e ao Universo por me permitirem realizar esse sonho plenamente! 

O CAMINHO

sexta-feira, 21 de agosto de 2026


Eu nunca tive férias na minha vida adulta. Veja bem: trabalho formalmente desde os 14 anos, mas nenhum contrato me deu o luxo de escolher um destino, arrumar as malas e ir conhecer o mundo.

Por isso, morar hoje num lugar onde pessoas do planeta inteiro vêm passar férias — um lugar transbordando história e paisagens deslumbrantes que cruzo numa caminhada trivial a caminho do trabalho — me dá a certeza absoluta de que sonhar vale a pena. Mesmo quando parece impossível.

Ao final do dia, sento à beira do Tejo apenas para apreciar a paisagem. Esse tem sido o meu passeio favorito. Amo ouvir várias línguas diferentes ao meu redor — e sinto um orgulho bobo quando percebo que entendo algumas.

Estar aqui me inspirou a voltar a estudar inglês e francês, porque finalmente sei que vou usar. Aliás, já usei! Dando uma direção aqui, indicando uma estação de metrô ali... Nesses momentos, me sinto uma verdadeira cidadã do mundo.

Outro dia, uma amiga me lembrou que, desde a adolescência, eu já falava de outros países, de outras culturas, de Paris... Como se fosse apenas uma questão de tempo — uns 30 anos, para ser exata — até eu finalmente abraçar esse mundo que tanto idealizei.

Não quero romantizar a imigração. Tem muita burocracia, ralação, perrengues, lágrimas e uma paciência e fé que precisam ser inabaláveis.

Mas eu, Jana, me recuso a perder o maior dos meus dons: o de enxergar as coisas belas que cruzam o meu caminho. 🌿✨

O Mundo Cabe em Lisboa

domingo, 9 de agosto de 2026

Eu sempre sonhei em conhecer o mundo.

Veja bem: ainda não conheço o mundo. Há continentes onde nunca pisei, cidades que continuam existindo apenas nas fotografias que guardo e tantos carimbos que ainda não chegaram ao meu passaporte de verdade.

Mas, de alguma maneira, sinto que finalmente estou naquele "mundo" com que sonhei durante tantos anos.

Porque moro em Portugal.

E Lisboa, descobri, tem um jeito curioso de trazer o planeta inteiro até nós.

Colecionar as bandeiras do Passaporte do Amor talvez seja também uma maneira de aproximar esse globo de mim sem precisar sair da cidade. Seja pelas burocracias que ainda me prendem ao território português, seja pelo orçamento de quem ainda não experimentou o tão prometido poder de compra europeu, por enquanto as minhas viagens acontecem através das pessoas.

Um francês aqui. Um canadense acolá. Um neerlandês que ficou no "e se". Um britânico, um português, um americano.

Alguns viraram beijos.

Outros, crônicas.

Uns poucos ficaram apenas nas conversas.

E talvez todos tenham me ensinado alguma coisa sobre esse mundo que eu queria tanto conhecer.

Mas há algo ainda mais fascinante acontecendo fora do Passaporte do Amor.

Às sete da manhã, dentro do metro, ouço português, francês, inglês, espanhol e línguas que nem sequer consigo identificar. Observo rostos diferentes, sotaques diferentes, histórias que atravessaram oceanos e fronteiras antes de se sentarem ao meu lado numa carruagem qualquer em direção ao trabalho.

E, de repente, percebo:

eu faço parte disso.

Durante tanto tempo, o mundo era um lugar que eu observava de longe. Estava nos filmes, nos livros, nas revistas, nas fotografias e nos planos que começavam sempre com "um dia".

Agora, acordo dentro dele.

Ainda sou imigrante. Ainda conto euros. Ainda enfrento burocracias. Ainda existem viagens que não posso fazer e lugares que permanecem apenas na lista dos sonhos.

Mas já não estou à espera de começar a viver aquela vida.

Ela começou.

Talvez seja isso que mais me emocione.

Tenho a sensação de que cheguei apenas à primeira página de um livro enorme e ainda há muito — muito mesmo — a ser desbravado.

Novas cidades.

Novas línguas.

Novos sabores.

Novas pessoas.

Novas versões de mim.

Aqui, sou uma mera aprendiz.

E talvez essa seja justamente a parte mais bonita de finalmente encontrar o mundo:

descobrir que, depois de passar tantos anos sonhando em conhecê-lo, agora tenho uma vida inteira para aprender a habitá-lo.

O Pressão Baixa

quarta-feira, 5 de agosto de 2026

Parecia uma dessas raridades que a vida guarda para quando já desistimos de procurar. Luso-canadense, falava francês, gentil, educado e reservado numa medida que, no começo, parecia encantadora. Daquelas pessoas que parecem oferecer um porto seguro depois de uma sucessão de tempestades.

Houve dias em que conversávamos até adormecer. A troca era leve, curiosa e constante. Parecia promissora. Mas bastou o nosso encontro carnal para que alguma coisa mudasse de lugar. Ou talvez saísse completamente do lugar.

A reserva que antes parecia charme transformou-se num silêncio difícil de atravessar.

As mensagens reduziram-se a um protocolar "olá, bom dia" e "boa noite". Quando perguntava como tinha sido o dia, recebia um lacónico "tranquilo".

Tranquilo?

Mas... e o resto?

Quero saber se acordaste atrasado, se queimaste a torrada, se o trânsito estava impossível, se o teu chefe apareceu de mau humor, se houve alguma fofoca no trabalho ou se precisaste tomar cinquenta cafezinhos para sobreviver ao expediente. São justamente essas pequenas inutilidades que fazem alguém deixar de ser apenas uma fotografia bonita e virar uma pessoa de verdade.

Na tentativa de explicar o que eu queria dizer, descrevi o meu próprio dia. Um texto longo, cheio de detalhes, pequenas tragédias burocráticas, momentos engraçados e pensamentos aleatórios. A resposta veio rápida:

— Escreves demais.

Ri por dentro.

Claro que escrevo.

Sou escritora.

Escrever é como respiro.

Logo depois veio outra frase, aparentemente sem relação com a conversa:

— Não quero um compromisso sério neste momento da minha vida.

Mas... quem falou em compromisso?

Eu própria havia dito exatamente o mesmo. Até brinquei que poderíamos ser excelentes amigos coloridos. Não estava a pedir promessas, alianças ou planos para o Natal. Estava apenas à procura de alguém que tivesse sangue a correr nas veias.

Foi ali que alguma coisa se quebrou.

Não houve discussão. Não houve drama. Apenas aquele instante silencioso em que percebemos que estamos a remar sozinhos.

Hoje já nem faço questão de mandar "bom dia".

A minha vida anda tão caótica, trabalhando de domingo a domingo, que não tenho tempo — nem energia — para conversas mornas, respostas automáticas e presenças que parecem ausências.

Quero emoção.

Quero sentir o sangue quente a correr nas veias.

Quero o frio na barriga.

As tais borboletas.

Quero alguém que conte histórias, que ria das próprias desgraças, que divida comigo as pequenas banalidades do quotidiano como quem oferece um pedaço da própria vida.

A timidez e a reserva que pareciam tão fofas no início acabaram por construir um abismo entre nós.

Não um abismo impossível de atravessar.

Mas um daqueles que exigem renúncia.

E eu aprendi, da maneira mais dolorosa possível, que nunca mais vou abrir mão de mim para manter alguém por perto.

Entre insistir numa relação de mão única e recolher-me, escolho sempre a segunda opção.

Descobri que existem pessoas que acalmam. Outras que incendeiam.

O problema é que eu nunca fui feita para morar no morno.

Então deixo o "Pressão Baixa" seguir o seu caminho.

Eu continuo à espera de alguém que faça o meu coração esquecer, por alguns segundos, como se respira.

Passaporte do Amor: Celibato Voluntário (e suas exceções)

domingo, 2 de agosto de 2026

Fechei a porta do Passaporte do Amor e joguei a chave no Tejo. Descobri que a energia que eu gastava com encontros medíocres constrói impérios quando canalizada para o meu próprio umbigo.

Deletar as aplicações de encontros não foi um ato de drama ou desespero; foi um ato puro de higienização mental. Cansa tentar garimpar alguma humanidade no meio de uma feira livre de egos insuflados, onde homens adultos operam na lógica do fast-food emocional: querem o máximo de entrega pelo mínimo de esforço. Pedem tudo, oferecem o nada, somem depois de conseguir o que queriam ou levam-te para o meio do nada num domingo à noite achando que isso é um gesto de charme. Haja paciência, medicação e terapia para aguentar tanto amadorismo fantasiado de masculinidade.

Cansada de me desdobrar para caber na expetativa rasa de quem só quer consumir a minha energia, decidi fechar a loja. O celibato voluntário surgiu não como uma punição, mas como um refúgio. Quando tu cortas o ruído dos pretendentes de ocasião, o silêncio que fica é extraordinariamente produtivo. A matemática é simples: o tempo e a cabeça que eu gastava a descodificar mensagens ambíguas e desilusões agendadas agora pagam as minhas contas, temperam o meu peito de frango com jardineira, limpam a minha casa e constroem o caminho para a minha varanda.

Isso significa que me tornei uma freira amargurada? Longe disso. Significa apenas que a fasquia subiu tanto que só passa quem tem credencial de respeito.

Porque a vida, na sua ironia, gosta de guardar raras e preciosas exceções. O canadense fofo que sabe o que é delicadeza, ou o americano gentil que compreende o valor de uma conversa inteligente sem pressas nem segundas intenções. Homens que não tentam sugar a tua força, mas que trazem um respiro de cavalheirismo num mundo que parece ter esquecido o que é isso. Para esses pouquíssimos — e apenas quando me aprouver —, ainda há uma réstia de espaço. Não por necessidade, mas por livre escolha de quem aprendeu a gostar demais da própria companhia.

No fim das contas, a abundância e o prazer não dependem da aprovação de ninguém. Resolve-se o corpo no próprio quarto, investe-se a alma nos próprios sonhos, e guarda-se o coração para quem realmente sabe estar à altura. 

O resto? O resto é só ruído de fundo. E eu já não tenho tempo a perder com ruído. Como bem diz Shakira, "mulheres não choram, mulheres faturam"! 

A Engenharia dos Sete Euros (ou Asas de Frango no Cais do Sodré)

terça-feira, 28 de julho de 2026

Às nove da manhã, o meu mundo valia exatamente sete euros. Sete moedas. O tipo de número que não dá nem para um pavor decente, quanto mais para atravessar sete dias de vida em Lisboa. Olhei para a conta e senti aquele chão a abrir-se sob os pés, aquele aperto no peito de quem se sente sozinha, ilhada, sem ter a quem pedir socorro. A casa onde durmo parecia subitamente mais fria, o ar mais pesado, a cozinha: um território hostil onde eu nem sequer tinha vontade de acender o fogão.

A mente entra em pânico, mas o cérebro de quem já cruzou um oceano tem os seus próprios truques. Chamam-lhe neuroplasticidade. Eu chamo-lhe instinto de sobrevivência pura.

Em vez de chorar sobre os sete euros, sentei-me e virei engenheira de cozinha de emergência no site do Pingo Doce. Dois pacotes de fusilli com cogumelo porcini a 1,39€. Uma lata de atum esquecida no armário. A jardineira de legumes congelados salteada na manteiga para dar corpo, dignidade e cor. Pronto: quatro almoços garantidos por menos de três euros. A matemática do desespero transformou-se numa vitória de sessenta e nove cêntimos por refeição. Ninguém no trabalho saberia que aquele prato bonito era, na verdade, um milagre de aritmética.

E então, o dia deu a sua volta de montanha-russa.

O universo tem uma forma estranha de responder a quem não se entrega. Cem reais que entram na conta. Uma limpeza de vinte e sete euros fechada para sábado, recorrente, na raça. Três empregos. O corpo cansa só de pensar na maratona que aí vem, mas a alma ganha um oxigénio que dinheiro nenhum compra: a certeza de que a tempestade é temporária e de que o meu futuro está a ser construído, moeda a moeda.

Agora, estou aqui no Cais do Sodré. O vento do Tejo bate na cara e apaga a poeira de um dia que tentou me derrubar e falhou miseravelmente. Pego um Somersby de maçã no Pingo Doce junto com as asinhas de frango apimentadas. Não é gasto, é celebração. É o prémio de quem começou o dia no fundo do poço e termina a olhar para o rio, de cabeça erguida, com o estômago cheio de dignidade e o coração cheio de futuro.

Até aos sete euros eu sobrevivi. Daqui para a frente, eu conquisto.

Sobre Pontes, Pinheiros e o Gollum

domingo, 26 de julho de 2026

Nem um fio de ideia... E ainda tenho 30 minutos de viagem de autocarro até à minha consulta psiquiátrica.

Passo pela Ponte 25 de Abril e penso: caralho, eu moro mesmo em Lisboa! Nunca vou deixar de ficar estupefata ao cruzar este rio.

Vejo pinheiros pelo caminho, vários, espetados nos canteiros da estrada, e lembro-me da minha casa em Rosário Oeste. Da minha mãe a cultivar com amor um pinheirinho que nunca cresceu muito — chegou, no máximo, à altura dos meus nove anos, quando mudei para Cuiabá. Deu-me uma vontade súbita de passear pela memory lane e abrir finalmente aquela caixa de fotos antigas que trouxe comigo na mala. Pensei até numa ideia de foto que pode dar um bom Reels.

Toca Florence no fone. Lembro-me de não ter conseguido o credenciamento de imprensa para o show, mas não vou desistir. Esta carteira internacional de jornalista ainda me vai levar a algum lugar. É como o Gollum no Senhor dos Anéis: Frodo e Sam queriam matá-lo logo no início do primeiro livro, mas o Gandalf avisou que ele ainda tinha um papel a desempenhar — e teve.

 A minha carteira da IFJ também tem. E eu também.



Meu próprio Comer, Rezar e Amar nunca coube num enxoval

sexta-feira, 24 de julho de 2026


Acho que nunca tive vontade de ter filhos...

Vendo uma foto de mesversário do filho da minha prima logo depois de ter ficado feliz de ter encontrado uma salada de bacon com nozes por € 2.30, meio que me dei conta que embora tenha muitos perrengues - as vezes a contar cêntimos - eu sou muito feliz com minha vida aqui na Europa.

Veja bem, Comer, Rezar e Amar se tornou o meu filme favorito. Via e revia inumeras vezes porque sentia que era aquilo que eu queria para minha vida, ainda mais sendo escritora!

A minha mala embaixo da cama, aquela dos sonhos que elas mencionam no filme, não tinha nada relacionado a bebês, ou coisas de noiva, família. Mas sim cartões postais, mapas e jornais de lugares que sabia que iria conhecer um dia.

Sempre sonhei em viajar e conhecer o mundo!

Vejo mamães com seus bebes e crianças no Instagram e, não me tocam como um vídeo vendo a Torre Eiffel primeira vez.

Veja bem, acho maravilhoso quem se encontra na maternidade, mas nunca me senti como alguém que gestaria, ou teria uma família.

E isso em absoluto não é triste e nem vazio, é apenas uma escolha diferente do caminho que todos consideram "natural" para uma mulher.

Uma amiga me disse algo que mexeu comigo. Que ela se lembra que desde mais jovem eu era conectada com o mundo lá fora mesmo estando em Cuiabá-MT.

Seja por filmes, pelos produtos que eu importava em uma época que os e-comerces ainda engatinhavam. Comprava dos Estados Unidos, Inglaterra, França, Coréia, China e Japão, isso tudo há 20 anos atrás.

E essa mesma amiga me disse que comigo, ela aprendeu a sonhar com um mundo além do nosso bairro, mesmo sem sair dele. Coisa que ela jamais pensou ser possível.

Me sinto orgulhosa da minha história e de onde cheguei e ainda irei chegar com essa cabecinha avoada e sonhadora.

Parte 2: Coisas que só uma mulher entende

terça-feira, 21 de julho de 2026

Há um idioma que não se ensina nos dicionários, que não exige passaporte e que se fala em silêncio absoluto, algures entre o cansaço do fim do dia e o espelho da casa de banho. É o dialeto das mulheres. Uma espécie de código de sobrevivência e de beleza que corre nas nossas veias e que nenhuma inteligência artificial ou lógica puramente masculina conseguirá alguma vez traduzir por completo.

Só uma mulher entende o peso exato e o alívio profundo de soltar o soutien depois de dez horas de rua. Aquela sensação de que o corpo, finalmente, voltou a pertencer-nos, e que o mundo lá fora já não nos pode cobrar mais nenhum centímetro de postura.

Só uma mulher entende o que é passar uma semana inteira a pão e iogurte de cêntimos do supermercado, a engolir choros e a contar moedas, e, de repente, gastar o que quase não tem num batom vermelho ou num perfume caro. E não é futilidade — os homens que não se atrevam a chamar-lhe isso. É dignidade. É olhar para o espelho no meio da tempestade da imigração, da solidão ou da ansiedade, passar aquela cor nos lábios e dizer ao mundo: "Podes bater com a força que quiseres, porque eu ainda estou aqui e continuo linda." É usar o aroma como uma armadura invisible.

Só nós sabemos ler a arquitetura de um silêncio. Quando um homem não responde a uma mensagem, ele está apenas a ser homem — distraído, cansado, focado noutra coisa qualquer. Mas quando nós olhamos para aquele ecrã mudo, o nosso cérebro monta uma ópera inteira em três atos. Culpamo-nos, recalculamos a rota, analisamos cada palavra dita na véspera, até percebermos — depois de muita solitude e de um prato de massa bem quente — que o nosso valor nunca dependeu do tempo de resposta de ninguém. O sol não corre atrás da sombra. Nós sabemos disso, mesmo quando o coração teima em esquecer.


Só uma mulher entende a beleza agridoce de transformar o vazio em solitude. De trocar o barulho de um copo partilhado num cais qualquer pelo aconchego de uma panela de água a ferver na cozinha de casa, a preparar aquela comfy food que abraça o estômago e acalma a alma. Há uma santidade quase mística no ato de cozinhar para si mesma quando se está sozinha num país estrangeiro. É uma missa particular, um pacto de amor-próprio.

Entendemo-nos no desapego. No momento em que deitamos fora as pulseiras, as memórias ou as amizades que já não nos servem, pedindo perdão aos altares da nossa história, mas sabendo que a nossa pele precisa de estar limpa para os novos recomeços. Entendemo-nos na luta contra a balança, na contagem da glicose, na gestão das hormonas que nos fazem rir e chorar no espaço de cinco minutos, e na capacidade quase sobre-humana de acordar no dia seguinte, pôr os pés no chão com dores nas pernas, e ir limpar três Airbnbs com o sorriso de quem vai conquistar a Europa.

Porque, no fundo, ser mulher é isto. É carregar uma mala cheia de sonhos — alguns que se realizam em Paris, outros que se escrevem em livros, e outros que se vivem na próxima paragem de autocarro —, saber exatamente o tamanho da nossa fragilidade e, ainda assim, escolher ser a nossa própria fortaleza.

Quem olhar de fora verá apenas uma mulher a caminhar na rua. Mas outra mulher, ao cruzar-se com ela, lerá nos olhos o livro inteiro. E sorrirá em silêncio. Porque só nós sabemos o quanto custa, e o quanto vale, ser quem somos.

O dia em que perdi o medo do escuro (e mudei de país sozinha)

domingo, 19 de julho de 2026

Queridas, hoje eu queria compartilhar com vocês — e com a minha psicóloga — uma das maiores vitórias da minha vida, daquelas que a gente só consegue enxergar quando para de verdade para olhar para si.

Agora há pouco, me peguei aqui no meu quarto, no escuro, completamente sozinha. E me veio um filme na cabeça. Pensar que até os meus 25, 30 anos, eu simplesmente não conseguia dormir sozinha em um quarto, muito menos com a luz apagada. Eu não suportava a solidão. Quando o meu ex-marido viajava, eu passava a noite inteira em claro, consumida pelo medo e pela ansiedade. Naquela época, eu ainda não tinha o meu diagnóstico de transtorno afetivo bipolar e não fazia o tratamento adequado.

Olhar para onde estou hoje e ver o quanto a minha vida mudou é algo que me emociona profundamente. E eu tenho total clareza de que essa transformação só foi possível porque eu recebi o diagnóstico correto, comecei a me tratar e a me acolher.

Eu passei a vida inteira acreditando que seria dependente de alguém para sempre. Nunca, nem nos meus sonhos mais distantes, imaginei que seria capaz de morar sozinha, cuidar de mim, dar conta de tudo, pagar meu aluguel, comprar minha comida, me sustentar e viver por conta própria — as coisas simples de um adulto comum que antes pareciam montanhas impossíveis de escalar.

Até a arquitetura do meu espaço físico mudou com a minha mente. Antigamente, a minha cama tinha que ficar obrigatoriamente colada na parede, como uma espécie de escudo para que eu conseguisse adormecer. Hoje, a minha cama fica no meio do quarto, livre, sem paredes me segurando de lado nenhum.

Se antes eu não conseguia passar uma noite sozinha no Brasil, hoje eu moro em um país estrangeiro, em um quarto que é só meu, e amo dormir no escuro profundo. Isso para mim é extraordinário. Sem o diagnóstico, sem a medicação e sem o processo terapêutico que me trouxe até aqui, nada disso seria possível.

Compartilho isso para lembrar a mim mesma — e a cada uma de vocês — do tamanho da nossa força quando decidimos nos tratar com cuidado, respeito e verdade. Hoje eu sou a minha própria fortaleza. E que paz que é descobrir isso.

Com muito carinho e gratidão, Jana.

*depoimento enviado o grupo de terapia Mulheres que Olham para Si

Coisas que só uma mulher entende

quinta-feira, 16 de julho de 2026

Há um idioma que não se ensina nos dicionários, que não exige passaporte e que se fala em silêncio absoluto, algures entre o cansaço do fim do dia e o espelho da casa de banho. É o dialeto das mulheres. Uma espécie de código de sobrevivência e de beleza que corre nas nossas veias e que nenhuma inteligência artificial ou lógica puramente masculina conseguirá alguma vez traduzir por completo.

Só uma mulher entende o peso exato e o alívio profundo de soltar o soutien depois de dez horas de rua. Aquela sensação de que o corpo, finalmente, voltou a pertencer-nos, e que o mundo lá fora já não nos pode cobrar mais nenhum centímetro de postura.

Só uma mulher entende o que é passar uma semana inteira a pão e iogurte de cêntimos do supermercado, a engolir choros e a contar moedas, e, de repente, gastar o que quase não tem num batom vermelho ou num perfume caro. E não é futilidade — os homens que não se atrevam a chamar-lhe isso. É dignidade. É olhar para o espelho no meio da tempestade da imigração, da solidão ou da ansiedade, passar aquela cor nos lábios e dizer ao mundo: "Podes bater com a força que quiseres, porque eu ainda estou aqui e continuo linda." É usar o aroma como uma armadura invisible.

Só nós sabemos ler a arquitetura de um silêncio. Quando um homem não responde a uma mensagem, ele está apenas a ser homem — distraído, cansado, focado noutra coisa qualquer. Mas quando nós olhamos para aquele ecrã mudo, o nosso cérebro monta uma ópera inteira em três atos. Culpamo-nos, recalculamos a rota, analisamos cada palavra dita na véspera, até percebermos — depois de muita solitude e de um prato de massa bem quente — que o nosso valor nunca dependeu do tempo de resposta de ninguém. O sol não corre atrás da sombra. Nós sabemos disso, mesmo quando o coração teima em esquecer.

Só uma mulher entende a beleza agridoce de transformar o vazio em solitude. De trocar o barulho de um copo partilhado num cais qualquer pelo aconchego de uma panela de água a ferver na cozinha de casa, a preparar aquela comfy food que abraça o estômago e acalma a alma. Há uma santidade quase mística no ato de cozinhar para si mesma quando se está sozinha num país estrangeiro. É uma missa particular, um pacto de amor-próprio.

Entendemo-nos no desapego. No momento em que deitamos fora as pulseiras, as memórias ou as amizades que já não nos servem, pedindo perdão aos altares da nossa história, mas sabendo que a nossa pele precisa de estar limpa para os novos recomeços. Entendemo-nos na luta contra a balança, na contagem da glicose, na gestão das hormonas que nos fazem rir e chorar no espaço de cinco minutos, e na capacidade quase sobre-humana de acordar no dia seguinte, pôr os pés no chão com dores nas pernas, e ir limpar três Airbnbs com o sorriso de quem vai conquistar a Europa.

Porque, no fundo, ser mulher é isto. É carregar uma mala cheia de sonhos — alguns que se realizam em Paris, outros que se escrevem em livros, e outros que se vivem na próxima paragem de autocarro —, saber exatamente o tamanho da nossa fragilidade e, ainda assim, escolher ser a nossa própria fortaleza.

Quem olhar de fora verá apenas uma mulher a caminhar na rua. Mas outra mulher, ao cruzar-se com ela, lerá nos olhos o livro inteiro. E sorrirá em silêncio. Porque só nós sabemos o quanto custa, e o quanto vale, ser quem somos.

Dois Dígitos e Desejada em Várias Línguas

domingo, 12 de julho de 2026

 Apenas quem já pesou 100 kg sabe o sentimento de ver 72 kg na balança


Hoje me pesei de manhã, em jejum, e a balança gentilmente me falou: "72,3".

"Uau", pensei!

Estou tão mais perto da minha meta para ficar fora da linha da obesidade, que é de 68 kg de acordo com o meu IMC (Índice de Massa Corporal) — o cálculo internacional usado para avaliar se estamos no peso ideal em relação à nossa altura. E o melhor: estou tão mais longe dos 100 kg. Sim, eu cheguei aos três dígitos quando morava em Cuiabá.

No primeiro impacto, me senti feliz com uma coisa teoricamente tola como o peso na balança. Não que não seja importante e válido, mas sei que existem tantas outras questões complexas acontecendo ao mesmo tempo, problemas reais da vida de quem imigra.

Mas, por outro lado, me sinto gostosa, desejada... uma mulher por inteiro. Não sei se me entendem.

Lembro perfeitamente das sessões de terapia em que dizia para a minha psicóloga que me achava "incomível". Por ser tão obesa, eu simplesmente não me sentia desejada. Por anos, foi exatamente assim que me senti aqui dentro: incomível.

E hoje, ver portugueses, alemães, americanos e italianos a me desejar me faz uma puta massagem no ego. Acho que era exatamente disso que eu precisava para resgatar a minha autoestima. São desejos internacionais expressos por vários olhares diferentes; a sensação única de me sentir desejada em várias línguas.

Não posso afirmar que todos os librianos têm vários contatinhos, mas sei que a minha agenda hoje está cheia de bandeirinhas diferentes.

No final das contas, imigrar é perder o chão para conseguir reconstruir o teto. E se a vida de imigrante está cheia de problemas reais e burocracias duras, hoje permito-me celebrar esta pequena-grande vitória. Entre o IMC e os olhares estrangeiros, descobri que cruzar o oceano também serviu para me lembrar de uma verdade que Cuiabá tinha esquecido: eu sou uma mulher desejada e, finalmente, dona da minha própria pele.

Pequenos Alívios Diários: 10 Coisas Secretas que Só as Mulheres Entendem

sexta-feira, 10 de julho de 2026


Segunda-feira de manhã. Caminhando em direção ao metrô para mais um dia de trabalho, fui surpreendida por um detalhe simples: a sensação gostosa do tecido da calça social tocando as minhas pernas, recém-depiladas na véspera.

Num piscar de olhos, fui teletransportada para uma memória afetiva de quase 25 anos atrás. Lembrei-me perfeitamente do toque de uma saia de musseline de seda que eu tinha na época, roçando na pele lisa. É incrível como o corpo guarda registos tão bonitos. Bastou o toque de um tecido macio para me devolver aquela leveza longínqua.

Enquanto acelerava o passo, pensei: qualquer mulher entenderia perfeitamente este sentimento.

Essa cumplicidade silenciosa que partilhamos inspirou-me a listar aqui aquelas pequenas grandes sensações que só nós, mulheres, entendemos de verdade:

  1. A carícia da pele: A sensação indescritível da perna recém-depilada a deslizar por um lençol limpo ou um tecido macio.

  2. A libertação do fim do dia: Tirar o sutiã e soltar um suspiro profundo depois de horas de trabalho.

  3. O alívio mensal: Para quem não quer ter filhos, ver a menstruação descer sem atrasos.

  4. O milagre do traço único: O teste de gravidez dar negativo (mais uma vez, um brinde à liberdade de escolha!).

  5. A descida do salto: Tirar o salto alto no meio da festa e sentir a sola tocar o chão frio. Paradisiaco.

  6. O poder do esmalte: Pintar as unhas de vermelho e sentir-se instantaneamente pronta para dominar o mundo.

  7. O ritual do banho premium: Aquele banho sem hora para acabar, com direito a esfoliante, máscara de cabelo e todas as texturas e aromas a que temos direito.

  8. O dia de rainha: Sair do salão com o serviço completo feito — unhas, depilação e cabelo impecáveis.

  9. A leveza do cabelo lavado: O balanço e o perfume que parecem renovar as ideias.

  10. O charme de ser cuidada: Quando o homem faz questão de pagar a conta. Pode parecer anti-feminista para algumas, mas a sensação de ser mimada e protegida é, sim, deliciosa.


Diário de uma Imigrante: Sandálias Novas, Telemóvel Perdido e 4% de Bateria

domingo, 5 de julho de 2026

 


Dizem que o universo testa a nossa resistência nos saldos de verão. Ontem, o meu palco foi o shopping de Oeiras. De um lado, a Mari: negra, risonha, expansiva, a entrar em todas as lojas e a comprar como se não houvesse amanhã. Do outro, eu: a olhar para as etiquetas com a dignidade de quem sabe que a conta bancária está a respirar por aparelhos, tentando ser a voz da razão que, claramente, não tenho dentro de mim.

A resistência durou até à secção de calçado. Os vinte euros que a Mari me devia — e que no meu plano financeiro mental já tinham três destinos diferentes — transformaram-se, por magia e fraqueza da carne, num protetor solar e numa sandália de quinze euros que eu precisava ter. Resultado da matemática da tentação: gastei o que não tinha e ainda fiquei a dever dois euros à minha devedora. Coisas de Jana.

Para afogar a culpa, fomos aos copos. A Mari, na sua generosidade habitual, comandou a mesa. Foram imperiais, petiscos e gargalhadas altas. Tão altas que incomodaram a mesa ao lado. Uma senhora portuguesa olhava-nos de soslaio, com aquele ar de reprovação disfarçado que eu conheço bem, focado especialmente no brilho barulhento da Mari. Olhei para ela e o meu sangue de Cuiabá ferveu: estava prontinha para armar um barraco ali mesmo se ela ousasse abrir a boca. Só mais tarde, entre risos, descobri que a Mari partilhava exatamente do mesmo espírito belicoso. Se a senhora soubesse o perigo que correu, teria mudado de esplanada.

Antes do caos final, ainda houve tempo para a poesia do acaso: fomos tirar uma foto para registar a noite e ganhámos um photobomb hilário de um gringo que decidiu fazer parte da nossa moldura. Mal sabíamos que aquela seria a última imagem de sanidade da noite. A mulher que estava ao lado dele, que deduzi ser a esposa/namorada olhou feio para ele e para nós, mas que culpa temos no oferecido querer sair em nossa foto?

Corta a cena para o encerramento do shopping. Segurança a olhar de lado, as portas a fecharem-se e nós ali, praticamente expulsas. O meu telemóvel? A agonizar com 4% de bateria. O ecrã apagou-se antes de eu conseguir chamar o transporte. O Uber da Mari estava a quatro minutos de distância. No desespero, o primeiro ensaio de regresso deu errado: três euros de taxa de cancelamento cobrados na minha conta para abrir as hostilidades do caos.

A Mari, num ato de desespero corporativo, ligou para a senhora Louise — a nossa patroa —, perguntando se eu podia ir para a casa dela (onde a Mari também mora) só para dar uma carga rápida no aparelho e pedir um carro dali. Resposta da patroa: um "não" redondo e sonolento, porque já estava tudo a ir para a cama.

Solução milagrosa? A Mari pediu um Bolt para mim no telemóvel dela. O carro chegou por milagre mesmo a tempo, logo a seguir ao Uber dela arrancar. Menos vinte euros na minha conta. Uma montanha de dinheiro para quem está a contar cêntimos, mas o preço da liberdade tem destas coisas.

Se acham que a história acaba aqui, é porque não conhecem a minha capacidade de dramatização.

Chego a casa no escuro, tateio a mochila e... o pânico instala-se. O telemóvel sumiu. Esqueci-me de referir que a minha mochila tem um rasgo interno secreto que funciona como uma espécie de Triângulo das Bermudas de objetos. Sem pensar, liguei o telemóvel institucional de onde trabalho e mandei uma mensagem desesperada para a senhora Louise pedindo para avisar a Mari que tinha deixado o meu aparelho no Bolt.

Instantes depois, decidi fazer o óbvio: virei a mochila de pernas para o ar e sacudi-a com a força de quem limpa a alma. Das profundezas do forro rasgado, o bendito telemóvel caiu no chão. Respirei fundo, sã e salva.

Até que o telemóvel institucional toca. Olhei para o ecrã, vi o nome da patroa e o meu sangue congelou. "Pronto, vai dar-me um sermão por acordá-la a esta hora". Atendi com o coração na boca. Do outro lado da linha, era a filha dela. Não era para falar de mim. Era para avisar que a Mari — sim, a expansiva Mari — tinha perdido o telemóvel dela no Uber. Desta vez, de verdade.

Pensem num rolé caótico! Olhando para trás agora, com a poeira assente, eu só consigo rir. Amei cada segundo daquela loucura, saí completamente falida, mas de alma lavada. E para fechar com chave de ouro e aliviar o coração de quem lê: o universo teve compaixão e a Mari recuperou o telemóvel dela ontem mesmo.

Um detalhe que só vi no dia seguinte: eu tinha o cabo que conectava ao carregador portátil na mochila, mas não vi na hora que estava lá. É a vida tem dessas ironias.

Que venha o próximo!


O Avesso do Controle

terça-feira, 30 de junho de 2026


Eu quero sentir um beijo que me tire do chão

Que congele a minha barriga

Que dê frio na espinha e arrepios na alma

Quero não sentir controle

Me sentir viva quando esses lábios tocam os meus

Que me tire o fôlego

Que me cause suspiros

Quero sentir algo que me atordoe

Sem rumo

Sem prumo

Sem centro de gravidade

Que apenas sentir

Que estou viva

Que o sangue ainda pulsa

Que o corpo se remexe e contorce em êxtase

Apenas sentir

Essa afinal, é a minha busca