Era sexta-feira e eu só queria que o expediente de trabalho acabasse logo. Eu tinha um plano perfeito para o meu final de tarde de "sextou": comprar algumas cervejas no Pingo Doce, uma azeitona (tal e qual os locais) e fumar quantos cigarros me apetecesse, admirando a paisagem com Olivia Rodrigo no ouvido.
Ainda havia planeado uma caminhada de 18 minutos do trabalho até a estação de comboios de Carcavelos, pois estou firmemente no projeto de ficar magra & gostosa. E assim fiz! Suei para um caralho, mas cumpri o objetivo com louvor.
Quarenta minutos depois, eu estava no Pingo Doce do Cais do Sodré a comprar os ingredientes do meu fim de tarde especial: quatro Super Bock pequenas e um frasco de azeitonas sem caroço. Fui à procura de um spot para me acomodar e curtir as ondas do Tejo a quebrar na mureta.
Fui muito feliz ali. Senti o prazer de concretizar um planeamento feito desde o início da manhã, na companhia da minha cervejinha e do meu cigarrinho. Cheguei até a emprestar o meu isqueiro a um gringo gato que me disse um “thank you”. Eu, numa fluência invejável (só que não), respondi: “you’re welcome”. Senti-me dentro de um filme de Hollywood. Ganhei até um sorriso e uma piscadela quando ele se estava a ir embora — de mãos dadas com a namorada, claro. Lisboa tem dessas coisas. Ouvir várias línguas seja onde for — na rua, no mercado, no metro ou no comboio — faz com que nos sintamos dentro de uma sociedade realmente globalizada.
Decidi que a terceira cerveja seria o limite, pois a vontade de fazer xixi começou a dar sinais logo ao final da segunda. Dali para a frente, foi só para trás.

O Sufoco
Terminei a última latinha já a sentir a bexiga bem apertada. E quem conhece o Cais do Sodré sabe: ali não há casas de banho públicas. Levantei-me a correr, procurando um canto na esperança de encontrar uma salvação, mas nada. A bexiga apertava cada vez mais e o pânico instalou-se: não vou conseguir segurar!
Corri para a estação de barcos, por onde havia passado outro dia, e encontrei um WC. Pago, claro! Acontece que eu não tinha dinheiro em espécie. Nessa altura, já sentia algo a escorrer pelas minhas pernas. Pensei: Deus, por favor, não me deixes mijar nas calças. Mas parece que Ele estava meio ocupado com causas mais urgentes do que a minha. O que era uma gota virou uma mini corredeira que chegou a deixar um pingo no chão, mesmo perto do meu sapato, denunciando a minha situação apocalíptica.
Corri desesperada para encontrar um ATM. Nessa hora, o vazamento já estava sem controlo e, para melhorar, a máquina tinha fila! Senhor! A calça já era. Estava toda molhada na frente. Menos mal que era preta e não aparecia tanto. Talvez um olhar mais atento pudesse notar, mas como as pessoas aqui estão sempre a correr apressadas, duvido que alguém tenha percebido.
Enfio uma nota de 10 euros na máquina que liberta o acesso ao WC. A máquina demora uma eternidade a dar as moedas de troco e eu ainda precisei de esperar que alguém viesse abrir manualmente a porta para mim. Pensa num sufoco. Tentei trançar as pernas para, de alguma forma, conter o dano, mas o vazamento silencioso continuava.
É, amores, depois dos 40 a bexiga já não é a mesma!
Entro na casa de banho e ainda tinha uma pessoa na minha frente e duas lá dentro que pareciam ter morrido na cabine, de tanto que demoraram. Quando finalmente chegou a minha vez, quase não consegui sentar-me na sanita para despejar o que pareciam os litros de cerveja que havia tomado. E relembro: foram apenas três latinhas pequenas. Um caos!
A Queda
E acham que acabou? Ainda teve a volta no metro.
Para mim, eu não estava bêbada, nem me consideraria “alegrinha”. Mas, aparentemente, a minha mente e o meu corpo estavam em total desalinho. Nos últimos degraus da escada, antes de entrar na zona de validação do metro, caí que nem uma jaca podre.
E quem disse que eu conseguia levantar-me? Contei com a ajuda de uma alma caridosa, uma senhora que praticamente teve de me alavancar do chão, porque acho que o meu próprio corpo decidiu ficar ali tombado, mortificado com a vergonha da situação. Não tenho ideia do que houve, mas o meu pé derrapou nos últimos degraus — talvez molhado pelo xixi da odisseia anterior — e fui parar à lona.
Sabe vergonha? Eu sou profissional a passar!
Agora perguntam-me se aprendi a lição e se nunca mais vou fazer isso? Pois claro que vou repetir! Porque foi um dia incrivelmente fantástico que eu amei viver. Com um melhor planeamento e algumas moedas de 1 euro no bolso para o WC, irei repetir a dose assim que possível.
Porque sou louca? Não. Porque estou viva, e experiências boas ou ruins fazem todas parte do que é viver.

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