O céu de Lisboa ameaçava desabar cinzento sobre as colinas, naquele tipo de feriado que convida a um recolhimento quase obrigatório. No papel, o plano parecia saído de um guião de romance europeu moderno: um encontro com um neerlandês, daqueles que trazem na bagagem o conceito intrínseco de gezellig — o aconchego caloroso que os povos do norte usam para combater o inverno da alma.
Se a chuva caísse, o cenário estava desenhado. Teríamos fugido para a Estufa Fria, caminhando sob a melodia das gotas a bater na enorme cobertura transparente, perdidos entre plantas tropicais e caminhos de pedra, onde o som da água criaria o isolamento perfeito para duas pessoas se conhecerem. Ou talvez o destino tivesse sido o requinte histórico do Palácio Chiado, subindo a escadaria de mármore sob o olhar do leão dourado, partilhando um copo de vinho tinto enquanto o burburinho da sala camuflava as nossas primeiras confidências.
Poderíamos ter terminado a tarde no labirinto kitsch do Pavilhão Chinês, decifrando relíquias nas vitrines à meia-luz, ou folheando livros na Ler Devagar, na LX Factory, deixando que a reabilitação industrial e o cheiro a papel impresso servissem de pretexto para esticar a conversa até à noite. Eu teria levado aquele meu vestido vermelho, a maquilhagem impecável e o meu rasto de perfume abaunilhado — a minha armadura de sedução e identidade.
O cenário era perfeito. O roteiro, infalível. Mas este encontro nunca aconteceu.
Ficou guardado na gaveta das realidades paralelas, tudo porque faltou o ingrediente mais crucial de todos, aquele que nenhum guia turístico ou bar sofisticado consegue simular: os sparkles no estômago.
Às vezes, a vida adulta exige pragmatismo, mas o amor — ou a simples promessa dele — exige magia. Quando os sinais digitais começam a falhar, quando as fotografias se escondem em visualizações únicas e o mistério se transforma em desinteresse, a chama apaga-se antes mesmo de o fósforo ser riscado.
Para mim, os sparkles são o motor. É o frio na barriga que me faz desafiar o mau tempo, calçar os saltos e sair de casa disposta a entregar o meu tempo a alguém. Sem essa eletricidade miúda, qualquer Palácio vira apenas um monte de pedras antigas e a Estufa Fria torna-se apenas um lugar húmido.
Este date com o holandês não passou de um rascunho bonito. Será, para sempre, o meu "E se...". E está tudo bem. Porque no fim do dia, há uma beleza imensa em escolher ficar em casa, a salvo da chuva, fiel à minha própria intensidade, esperando pelo próximo encontro que, este sim, faça a minha barriga vibrar.

