Meu próprio Comer, Rezar e Amar nunca coube num enxoval

sexta-feira, 24 de julho de 2026


Acho que nunca tive vontade de ter filhos...

Vendo uma foto de mesversário do filho da minha prima logo depois de ter ficado feliz de ter encontrado uma salada de bacon com nozes por € 2.30, meio que me dei conta que embora tenha muitos perrengues - as vezes a contar cêntimos - eu sou muito feliz com minha vida aqui na Europa.

Veja bem, Comer, Rezar e Amar se tornou o meu filme favorito. Via e revia inumeras vezes porque sentia que era aquilo que eu queria para minha vida, ainda mais sendo escritora!

A minha mala embaixo da cama, aquela dos sonhos que elas mencionam no filme, não tinha nada relacionado a bebês, ou coisas de noiva, família. Mas sim cartões postais, mapas e jornais de lugares que sabia que iria conhecer um dia.

Sempre sonhei em viajar e conhecer o mundo!

Vejo mamães com seus bebes e crianças no Instagram e, não me tocam como um vídeo vendo a Torre Eiffel primeira vez.

Veja bem, acho maravilhoso quem se encontra na maternidade, mas nunca me senti como alguém que gestaria, ou teria uma família.

E isso em absoluto não é triste e nem vazio, é apenas uma escolha diferente do caminho que todos consideram "natural" para uma mulher.

Uma amiga me disse algo que mexeu comigo. Que ela se lembra que desde mais jovem eu era conectada com o mundo lá fora mesmo estando em Cuiabá-MT.

Seja por filmes, pelos produtos que eu importava em uma época que os e-comerces ainda engatinhavam. Comprava dos Estados Unidos, Inglaterra, França, Coréia, China e Japão, isso tudo há 20 anos atrás.

E essa mesma amiga me disse que comigo, ela aprendeu a sonhar com um mundo além do nosso bairro, mesmo sem sair dele. Coisa que ela jamais pensou ser possível.

Me sinto orgulhosa da minha história e de onde cheguei e ainda irei chegar com essa cabecinha avoada e sonhadora.

Parte 2: Coisas que só uma mulher entende

terça-feira, 21 de julho de 2026

Há um idioma que não se ensina nos dicionários, que não exige passaporte e que se fala em silêncio absoluto, algures entre o cansaço do fim do dia e o espelho da casa de banho. É o dialeto das mulheres. Uma espécie de código de sobrevivência e de beleza que corre nas nossas veias e que nenhuma inteligência artificial ou lógica puramente masculina conseguirá alguma vez traduzir por completo.

Só uma mulher entende o peso exato e o alívio profundo de soltar o soutien depois de dez horas de rua. Aquela sensação de que o corpo, finalmente, voltou a pertencer-nos, e que o mundo lá fora já não nos pode cobrar mais nenhum centímetro de postura.

Só uma mulher entende o que é passar uma semana inteira a pão e iogurte de cêntimos do supermercado, a engolir choros e a contar moedas, e, de repente, gastar o que quase não tem num batom vermelho ou num perfume caro. E não é futilidade — os homens que não se atrevam a chamar-lhe isso. É dignidade. É olhar para o espelho no meio da tempestade da imigração, da solidão ou da ansiedade, passar aquela cor nos lábios e dizer ao mundo: "Podes bater com a força que quiseres, porque eu ainda estou aqui e continuo linda." É usar o aroma como uma armadura invisible.

Só nós sabemos ler a arquitetura de um silêncio. Quando um homem não responde a uma mensagem, ele está apenas a ser homem — distraído, cansado, focado noutra coisa qualquer. Mas quando nós olhamos para aquele ecrã mudo, o nosso cérebro monta uma ópera inteira em três atos. Culpamo-nos, recalculamos a rota, analisamos cada palavra dita na véspera, até percebermos — depois de muita solitude e de um prato de massa bem quente — que o nosso valor nunca dependeu do tempo de resposta de ninguém. O sol não corre atrás da sombra. Nós sabemos disso, mesmo quando o coração teima em esquecer.


Só uma mulher entende a beleza agridoce de transformar o vazio em solitude. De trocar o barulho de um copo partilhado num cais qualquer pelo aconchego de uma panela de água a ferver na cozinha de casa, a preparar aquela comfy food que abraça o estômago e acalma a alma. Há uma santidade quase mística no ato de cozinhar para si mesma quando se está sozinha num país estrangeiro. É uma missa particular, um pacto de amor-próprio.

Entendemo-nos no desapego. No momento em que deitamos fora as pulseiras, as memórias ou as amizades que já não nos servem, pedindo perdão aos altares da nossa história, mas sabendo que a nossa pele precisa de estar limpa para os novos recomeços. Entendemo-nos na luta contra a balança, na contagem da glicose, na gestão das hormonas que nos fazem rir e chorar no espaço de cinco minutos, e na capacidade quase sobre-humana de acordar no dia seguinte, pôr os pés no chão com dores nas pernas, e ir limpar três Airbnbs com o sorriso de quem vai conquistar a Europa.

Porque, no fundo, ser mulher é isto. É carregar uma mala cheia de sonhos — alguns que se realizam em Paris, outros que se escrevem em livros, e outros que se vivem na próxima paragem de autocarro —, saber exatamente o tamanho da nossa fragilidade e, ainda assim, escolher ser a nossa própria fortaleza.

Quem olhar de fora verá apenas uma mulher a caminhar na rua. Mas outra mulher, ao cruzar-se com ela, lerá nos olhos o livro inteiro. E sorrirá em silêncio. Porque só nós sabemos o quanto custa, e o quanto vale, ser quem somos.

O dia em que perdi o medo do escuro (e mudei de país sozinha)

domingo, 19 de julho de 2026

Queridas, hoje eu queria compartilhar com vocês — e com a minha psicóloga — uma das maiores vitórias da minha vida, daquelas que a gente só consegue enxergar quando para de verdade para olhar para si.

Agora há pouco, me peguei aqui no meu quarto, no escuro, completamente sozinha. E me veio um filme na cabeça. Pensar que até os meus 25, 30 anos, eu simplesmente não conseguia dormir sozinha em um quarto, muito menos com a luz apagada. Eu não suportava a solidão. Quando o meu ex-marido viajava, eu passava a noite inteira em claro, consumida pelo medo e pela ansiedade. Naquela época, eu ainda não tinha o meu diagnóstico de transtorno afetivo bipolar e não fazia o tratamento adequado.

Olhar para onde estou hoje e ver o quanto a minha vida mudou é algo que me emociona profundamente. E eu tenho total clareza de que essa transformação só foi possível porque eu recebi o diagnóstico correto, comecei a me tratar e a me acolher.

Eu passei a vida inteira acreditando que seria dependente de alguém para sempre. Nunca, nem nos meus sonhos mais distantes, imaginei que seria capaz de morar sozinha, cuidar de mim, dar conta de tudo, pagar meu aluguel, comprar minha comida, me sustentar e viver por conta própria — as coisas simples de um adulto comum que antes pareciam montanhas impossíveis de escalar.

Até a arquitetura do meu espaço físico mudou com a minha mente. Antigamente, a minha cama tinha que ficar obrigatoriamente colada na parede, como uma espécie de escudo para que eu conseguisse adormecer. Hoje, a minha cama fica no meio do quarto, livre, sem paredes me segurando de lado nenhum.

Se antes eu não conseguia passar uma noite sozinha no Brasil, hoje eu moro em um país estrangeiro, em um quarto que é só meu, e amo dormir no escuro profundo. Isso para mim é extraordinário. Sem o diagnóstico, sem a medicação e sem o processo terapêutico que me trouxe até aqui, nada disso seria possível.

Compartilho isso para lembrar a mim mesma — e a cada uma de vocês — do tamanho da nossa força quando decidimos nos tratar com cuidado, respeito e verdade. Hoje eu sou a minha própria fortaleza. E que paz que é descobrir isso.

Com muito carinho e gratidão, Jana.

*depoimento enviado o grupo de terapia Mulheres que Olham para Si

Coisas que só uma mulher entende

quinta-feira, 16 de julho de 2026

Há um idioma que não se ensina nos dicionários, que não exige passaporte e que se fala em silêncio absoluto, algures entre o cansaço do fim do dia e o espelho da casa de banho. É o dialeto das mulheres. Uma espécie de código de sobrevivência e de beleza que corre nas nossas veias e que nenhuma inteligência artificial ou lógica puramente masculina conseguirá alguma vez traduzir por completo.

Só uma mulher entende o peso exato e o alívio profundo de soltar o soutien depois de dez horas de rua. Aquela sensação de que o corpo, finalmente, voltou a pertencer-nos, e que o mundo lá fora já não nos pode cobrar mais nenhum centímetro de postura.

Só uma mulher entende o que é passar uma semana inteira a pão e iogurte de cêntimos do supermercado, a engolir choros e a contar moedas, e, de repente, gastar o que quase não tem num batom vermelho ou num perfume caro. E não é futilidade — os homens que não se atrevam a chamar-lhe isso. É dignidade. É olhar para o espelho no meio da tempestade da imigração, da solidão ou da ansiedade, passar aquela cor nos lábios e dizer ao mundo: "Podes bater com a força que quiseres, porque eu ainda estou aqui e continuo linda." É usar o aroma como uma armadura invisible.

Só nós sabemos ler a arquitetura de um silêncio. Quando um homem não responde a uma mensagem, ele está apenas a ser homem — distraído, cansado, focado noutra coisa qualquer. Mas quando nós olhamos para aquele ecrã mudo, o nosso cérebro monta uma ópera inteira em três atos. Culpamo-nos, recalculamos a rota, analisamos cada palavra dita na véspera, até percebermos — depois de muita solitude e de um prato de massa bem quente — que o nosso valor nunca dependeu do tempo de resposta de ninguém. O sol não corre atrás da sombra. Nós sabemos disso, mesmo quando o coração teima em esquecer.

Só uma mulher entende a beleza agridoce de transformar o vazio em solitude. De trocar o barulho de um copo partilhado num cais qualquer pelo aconchego de uma panela de água a ferver na cozinha de casa, a preparar aquela comfy food que abraça o estômago e acalma a alma. Há uma santidade quase mística no ato de cozinhar para si mesma quando se está sozinha num país estrangeiro. É uma missa particular, um pacto de amor-próprio.

Entendemo-nos no desapego. No momento em que deitamos fora as pulseiras, as memórias ou as amizades que já não nos servem, pedindo perdão aos altares da nossa história, mas sabendo que a nossa pele precisa de estar limpa para os novos recomeços. Entendemo-nos na luta contra a balança, na contagem da glicose, na gestão das hormonas que nos fazem rir e chorar no espaço de cinco minutos, e na capacidade quase sobre-humana de acordar no dia seguinte, pôr os pés no chão com dores nas pernas, e ir limpar três Airbnbs com o sorriso de quem vai conquistar a Europa.

Porque, no fundo, ser mulher é isto. É carregar uma mala cheia de sonhos — alguns que se realizam em Paris, outros que se escrevem em livros, e outros que se vivem na próxima paragem de autocarro —, saber exatamente o tamanho da nossa fragilidade e, ainda assim, escolher ser a nossa própria fortaleza.

Quem olhar de fora verá apenas uma mulher a caminhar na rua. Mas outra mulher, ao cruzar-se com ela, lerá nos olhos o livro inteiro. E sorrirá em silêncio. Porque só nós sabemos o quanto custa, e o quanto vale, ser quem somos.

Review: Lattafa Yara vale o hype ou é só modinha do TikTok?

terça-feira, 14 de julho de 2026


Senti este perfume pela primeira vez em Sesimbra, quando a minha amiga Michele o comprou numa promoção por 20 euros na versão de 100 ml. Quando o cheirei, não quis acreditar que um perfume pudesse ser tão cheiroso e diferente por um custo tão baixo!

Embora seja um perfume gourmand, eu diria que é doce na medida certa para quem ama fragrâncias adocicadas, mas com um toque de mistério que o torna super envolvente. Ele traz uma baunilha charmosa e aconchegante que, na minha pele, fica levemente lactónica (lembrando-me, de longe, o Dior Poison).

Segundo o site Fragrantica, a sua pirâmide olfativa é composta por:

  • Notas de topo: Orquídea, Heliotrópio e Tangerina.

  • Notas de coração: Acorde Gourmand e Frutas Tropicais.

  • Notas de fundo: Baunilha, Almíscar e Sândalo.

Yara de Lattafa Perfumes é um perfume Oriental Baunilha Feminino. Yara foi lançado em 2020. As notas de topo são: Orquídea, Heliotrópio e Tangerina. As notas de coração são: Acorde Gourmand e Frutas Tropicais. As notas de fundo são: Baunilha, Almíscar e Sândalo.

Eu gosto de usá-lo à noite, na categoria dos "especiais". Embora tenha sido um perfume relativamente barato pelo que entrega — paguei apenas 9,75 € por 50 ml na Primor —, prefiro guardá-lo para encontros e passeios. O motivo? Sinto-me uma bela de uma gostosa quando o uso, e acho que essa sensação não combina muito com o ambiente de trabalho.

Afinal, vale a pena comprar ou é apenas mais um hype do TikTok? Acho que vale super a pena. É um perfume diferenciado, que causa um efeito WOW por onde passa e tem um precinho que cabe perfeitamente no bolso de nós, patricinhas sem herança.

Dois Dígitos e Desejada em Várias Línguas

domingo, 12 de julho de 2026

 Apenas quem já pesou 100 kg sabe o sentimento de ver 72 kg na balança


Hoje me pesei de manhã, em jejum, e a balança gentilmente me falou: "72,3".

"Uau", pensei!

Estou tão mais perto da minha meta para ficar fora da linha da obesidade, que é de 68 kg de acordo com o meu IMC (Índice de Massa Corporal) — o cálculo internacional usado para avaliar se estamos no peso ideal em relação à nossa altura. E o melhor: estou tão mais longe dos 100 kg. Sim, eu cheguei aos três dígitos quando morava em Cuiabá.

No primeiro impacto, me senti feliz com uma coisa teoricamente tola como o peso na balança. Não que não seja importante e válido, mas sei que existem tantas outras questões complexas acontecendo ao mesmo tempo, problemas reais da vida de quem imigra.

Mas, por outro lado, me sinto gostosa, desejada... uma mulher por inteiro. Não sei se me entendem.

Lembro perfeitamente das sessões de terapia em que dizia para a minha psicóloga que me achava "incomível". Por ser tão obesa, eu simplesmente não me sentia desejada. Por anos, foi exatamente assim que me senti aqui dentro: incomível.

E hoje, ver portugueses, alemães, americanos e italianos a me desejar me faz uma puta massagem no ego. Acho que era exatamente disso que eu precisava para resgatar a minha autoestima. São desejos internacionais expressos por vários olhares diferentes; a sensação única de me sentir desejada em várias línguas.

Não posso afirmar que todos os librianos têm vários contatinhos, mas sei que a minha agenda hoje está cheia de bandeirinhas diferentes.

No final das contas, imigrar é perder o chão para conseguir reconstruir o teto. E se a vida de imigrante está cheia de problemas reais e burocracias duras, hoje permito-me celebrar esta pequena-grande vitória. Entre o IMC e os olhares estrangeiros, descobri que cruzar o oceano também serviu para me lembrar de uma verdade que Cuiabá tinha esquecido: eu sou uma mulher desejada e, finalmente, dona da minha própria pele.