Dois Dígitos e Desejada em Várias Línguas

domingo, 12 de julho de 2026

 Apenas quem já pesou 100 kg sabe o sentimento de ver 72 kg na balança


Hoje me pesei de manhã, em jejum, e a balança gentilmente me falou: "72,3".

"Uau", pensei!

Estou tão mais perto da minha meta para ficar fora da linha da obesidade, que é de 68 kg de acordo com o meu IMC (Índice de Massa Corporal) — o cálculo internacional usado para avaliar se estamos no peso ideal em relação à nossa altura. E o melhor: estou tão mais longe dos 100 kg. Sim, eu cheguei aos três dígitos quando morava em Cuiabá.

No primeiro impacto, me senti feliz com uma coisa teoricamente tola como o peso na balança. Não que não seja importante e válido, mas sei que existem tantas outras questões complexas acontecendo ao mesmo tempo, problemas reais da vida de quem imigra.

Mas, por outro lado, me sinto gostosa, desejada... uma mulher por inteiro. Não sei se me entendem.

Lembro perfeitamente das sessões de terapia em que dizia para a minha psicóloga que me achava "incomível". Por ser tão obesa, eu simplesmente não me sentia desejada. Por anos, foi exatamente assim que me senti aqui dentro: incomível.

E hoje, ver portugueses, alemães, americanos e italianos a me desejar me faz uma puta massagem no ego. Acho que era exatamente disso que eu precisava para resgatar a minha autoestima. São desejos internacionais expressos por vários olhares diferentes; a sensação única de me sentir desejada em várias línguas.

Não posso afirmar que todos os librianos têm vários contatinhos, mas sei que a minha agenda hoje está cheia de bandeirinhas diferentes.

No final das contas, imigrar é perder o chão para conseguir reconstruir o teto. E se a vida de imigrante está cheia de problemas reais e burocracias duras, hoje permito-me celebrar esta pequena-grande vitória. Entre o IMC e os olhares estrangeiros, descobri que cruzar o oceano também serviu para me lembrar de uma verdade que Cuiabá tinha esquecido: eu sou uma mulher desejada e, finalmente, dona da minha própria pele.

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