Dizem que o universo testa a nossa
resistência nos saldos de verão. Ontem, o meu palco foi o shopping de Oeiras.
De um lado, a Mari: negra, risonha, expansiva, a entrar em todas as lojas e a
comprar como se não houvesse amanhã. Do outro, eu: a olhar para as etiquetas
com a dignidade de quem sabe que a conta bancária está a respirar por
aparelhos, tentando ser a voz da razão que, claramente, não tenho dentro de
mim.
A resistência durou até à secção de
calçado. Os vinte euros que a Mari me devia — e que no meu plano financeiro
mental já tinham três destinos diferentes — transformaram-se, por magia e
fraqueza da carne, num protetor solar e numa sandália de quinze euros que eu precisava
ter. Resultado da matemática da tentação: gastei o que não tinha e ainda fiquei
a dever dois euros à minha devedora. Coisas de Jana.
Para afogar a culpa, fomos aos copos. A Mari,
na sua generosidade habitual, comandou a mesa. Foram imperiais, petiscos e
gargalhadas altas. Tão altas que incomodaram a mesa ao lado. Uma senhora
portuguesa olhava-nos de soslaio, com aquele ar de reprovação disfarçado que eu
conheço bem, focado especialmente no brilho barulhento da Mari. Olhei para ela
e o meu sangue de Cuiabá ferveu: estava prontinha para armar um barraco ali
mesmo se ela ousasse abrir a boca. Só mais tarde, entre risos, descobri que a Mari
partilhava exatamente do mesmo espírito belicoso. Se a senhora soubesse o
perigo que correu, teria mudado de esplanada.
Antes do caos final, ainda houve tempo
para a poesia do acaso: fomos tirar uma foto para registar a noite e ganhámos
um photobomb hilário de um gringo que
decidiu fazer parte da nossa moldura. Mal sabíamos que aquela seria a última
imagem de sanidade da noite. A mulher que estava ao lado dele, que deduzi ser a
esposa/namorada olhou feio para ele e para nós, mas que culpa temos no
oferecido querer sair em nossa foto?
Corta a cena para o encerramento do
shopping. Segurança a olhar de lado, as portas a fecharem-se e nós ali,
praticamente expulsas. O meu telemóvel? A agonizar com 4% de bateria. O ecrã
apagou-se antes de eu conseguir chamar o transporte. O Uber da Mari estava a
quatro minutos de distância. No desespero, o primeiro ensaio de regresso deu
errado: três euros de taxa de cancelamento cobrados na minha conta para abrir
as hostilidades do caos.
A Mari, num ato de desespero corporativo,
ligou para a senhora Louise — a nossa patroa —, perguntando se eu podia ir para
a casa dela (onde a Mari também mora) só para dar uma carga rápida no aparelho
e pedir um carro dali. Resposta da patroa: um "não" redondo e
sonolento, porque já estava tudo a ir para a cama.
Solução milagrosa? A Mari pediu um Bolt
para mim no telemóvel dela. O carro chegou por milagre mesmo a tempo, logo a
seguir ao Uber dela arrancar. Menos vinte euros na minha conta. Uma montanha de
dinheiro para quem está a contar cêntimos, mas o preço da liberdade tem destas
coisas.
Se acham que a história acaba aqui, é
porque não conhecem a minha capacidade de dramatização.
Chego a casa no escuro, tateio a mochila
e... o pânico instala-se. O telemóvel sumiu. Esqueci-me de referir que a minha
mochila tem um rasgo interno secreto que funciona como uma espécie de Triângulo
das Bermudas de objetos. Sem pensar, liguei o telemóvel institucional de onde
trabalho e mandei uma mensagem desesperada para a senhora Louise pedindo para
avisar a Mari que tinha deixado o meu aparelho no Bolt.
Instantes depois, decidi fazer o óbvio:
virei a mochila de pernas para o ar e sacudi-a com a força de quem limpa a
alma. Das profundezas do forro rasgado, o bendito telemóvel caiu no chão.
Respirei fundo, sã e salva.
Até que o telemóvel institucional toca.
Olhei para o ecrã, vi o nome da patroa e o meu sangue congelou. "Pronto,
vai dar-me um sermão por acordá-la a esta hora". Atendi com o coração na
boca. Do outro lado da linha, era a filha dela. Não era para falar de mim. Era
para avisar que a Mari — sim, a expansiva Mari — tinha perdido o telemóvel dela
no Uber. Desta vez, de verdade.
Pensem num rolé caótico! Olhando para trás
agora, com a poeira assente, eu só consigo rir. Amei cada segundo daquela
loucura, saí completamente falida, mas de alma lavada. E para fechar com chave
de ouro e aliviar o coração de quem lê: o universo teve compaixão e a Mari
recuperou o telemóvel dela ontem mesmo.
Um detalhe que só vi no dia seguinte: eu tinha o cabo que
conectava ao carregador portátil na mochila, mas não vi na hora que estava lá.
É a vida tem dessas ironias.
Que venha o próximo!