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Entre Lágrimas e Respostas: O Dia Em Que Lisboa Me Disse "Sim"

segunda-feira, 24 de agosto de 2026

Dias de imigração têm um peso diferente. Não é só a rotina de lavar a roupa, bater o ponto no trabalho, medir o cansaço nas pernas ou procurar um teto que não nos sufoque entre sótãos e águas-furtadas. É a dor surda do fuso horário. Há dias em que a distância não é contada em quilómetros, mas em lágrimas que caem sem pedir licença no silêncio do quarto.

Ontem o calendário pesava. Era aniversário da minha mãe e do Pedro Lucas, o amor da minha vida, o meu único sobrinho que soprava oito velinhas do outro lado do Atlântico. Chorei de saudade, de ausência, daquela solidão que só quem atravessa o oceano para refazer a vida conhece. Chorei por não estar lá a dar o abraço, por ver a vida dos meus a acontecer através da tela do celular.

E é nesses dias de peito aberto que o destino resolve mostrar que nada é por acaso.

No final da tarde, entre o cansaço do trabalho e os restos do choro, chegou o aviso dos CTT. Um papel modesto, mas carregado de gravidade: correspondência da AIMA guardada na agência à minha espera.

Quem emigra sabe que aquele papel registado é muito mais do que celulose e tinta. É o anúncio do fim da espera, o soco no estômago da ansiedade de quem vive há meses com o coração na boca, a olhar para o processo parado numa tela. O Universo não erra no timing. Naquele dia exato de tanta dor e saudade, a vida enviou-me o sinal mais claro de que este é, sim, o meu lugar. Que cada renúncia, cada noitada de escrita no blog e cada caminhada à beira do Tejo tinham um propósito.

Amanhã cedo a agência dos correios abre portas. Mas a verdade é que a liberdade já começou hoje, escrita numa folha de aviso amarelada que trouxe o sol de volta a Lisboa.

Só Deus sabe o quanto orei e pedi aos céus por um sinal de que eu havia feito a escolha certa em perseguir esse sonho louco, longe da minha família, do que me é conhecido, e, desbravar esse mundo imenso que sempre achei que nunca seria para mim. 

Receber esse documento, essa Autorização de Residência, tem um peso enorme na minha vida, na sensação de pertencimento a essa terra que tem me acolhido. 

Os dias não têm sido fáceis, são de muita luta, trabalho, cansaço e lágrimas, mas as recompensas são na mesma medida. Hoje posso dizer que sou feliz, finalmente. Aquela felicidade genuína que somente a independência te trás. 

Hoje só quero agradecer a Deus, Nossa Senhora do Carmo e ao Universo por me permitirem realizar esse sonho plenamente! 

O CAMINHO

sexta-feira, 21 de agosto de 2026


Eu nunca tive férias na minha vida adulta. Veja bem: trabalho formalmente desde os 14 anos, mas nenhum contrato me deu o luxo de escolher um destino, arrumar as malas e ir conhecer o mundo.

Por isso, morar hoje num lugar onde pessoas do planeta inteiro vêm passar férias — um lugar transbordando história e paisagens deslumbrantes que cruzo numa caminhada trivial a caminho do trabalho — me dá a certeza absoluta de que sonhar vale a pena. Mesmo quando parece impossível.

Ao final do dia, sento à beira do Tejo apenas para apreciar a paisagem. Esse tem sido o meu passeio favorito. Amo ouvir várias línguas diferentes ao meu redor — e sinto um orgulho bobo quando percebo que entendo algumas.

Estar aqui me inspirou a voltar a estudar inglês e francês, porque finalmente sei que vou usar. Aliás, já usei! Dando uma direção aqui, indicando uma estação de metrô ali... Nesses momentos, me sinto uma verdadeira cidadã do mundo.

Outro dia, uma amiga me lembrou que, desde a adolescência, eu já falava de outros países, de outras culturas, de Paris... Como se fosse apenas uma questão de tempo — uns 30 anos, para ser exata — até eu finalmente abraçar esse mundo que tanto idealizei.

Não quero romantizar a imigração. Tem muita burocracia, ralação, perrengues, lágrimas e uma paciência e fé que precisam ser inabaláveis.

Mas eu, Jana, me recuso a perder o maior dos meus dons: o de enxergar as coisas belas que cruzam o meu caminho. 🌿✨

O Mundo Cabe em Lisboa

domingo, 9 de agosto de 2026

Eu sempre sonhei em conhecer o mundo.

Veja bem: ainda não conheço o mundo. Há continentes onde nunca pisei, cidades que continuam existindo apenas nas fotografias que guardo e tantos carimbos que ainda não chegaram ao meu passaporte de verdade.

Mas, de alguma maneira, sinto que finalmente estou naquele "mundo" com que sonhei durante tantos anos.

Porque moro em Portugal.

E Lisboa, descobri, tem um jeito curioso de trazer o planeta inteiro até nós.

Colecionar as bandeiras do Passaporte do Amor talvez seja também uma maneira de aproximar esse globo de mim sem precisar sair da cidade. Seja pelas burocracias que ainda me prendem ao território português, seja pelo orçamento de quem ainda não experimentou o tão prometido poder de compra europeu, por enquanto as minhas viagens acontecem através das pessoas.

Um francês aqui. Um canadense acolá. Um neerlandês que ficou no "e se". Um britânico, um português, um americano.

Alguns viraram beijos.

Outros, crônicas.

Uns poucos ficaram apenas nas conversas.

E talvez todos tenham me ensinado alguma coisa sobre esse mundo que eu queria tanto conhecer.

Mas há algo ainda mais fascinante acontecendo fora do Passaporte do Amor.

Às sete da manhã, dentro do metro, ouço português, francês, inglês, espanhol e línguas que nem sequer consigo identificar. Observo rostos diferentes, sotaques diferentes, histórias que atravessaram oceanos e fronteiras antes de se sentarem ao meu lado numa carruagem qualquer em direção ao trabalho.

E, de repente, percebo:

eu faço parte disso.

Durante tanto tempo, o mundo era um lugar que eu observava de longe. Estava nos filmes, nos livros, nas revistas, nas fotografias e nos planos que começavam sempre com "um dia".

Agora, acordo dentro dele.

Ainda sou imigrante. Ainda conto euros. Ainda enfrento burocracias. Ainda existem viagens que não posso fazer e lugares que permanecem apenas na lista dos sonhos.

Mas já não estou à espera de começar a viver aquela vida.

Ela começou.

Talvez seja isso que mais me emocione.

Tenho a sensação de que cheguei apenas à primeira página de um livro enorme e ainda há muito — muito mesmo — a ser desbravado.

Novas cidades.

Novas línguas.

Novos sabores.

Novas pessoas.

Novas versões de mim.

Aqui, sou uma mera aprendiz.

E talvez essa seja justamente a parte mais bonita de finalmente encontrar o mundo:

descobrir que, depois de passar tantos anos sonhando em conhecê-lo, agora tenho uma vida inteira para aprender a habitá-lo.

O Pressão Baixa

quarta-feira, 5 de agosto de 2026

Parecia uma dessas raridades que a vida guarda para quando já desistimos de procurar. Luso-canadense, falava francês, gentil, educado e reservado numa medida que, no começo, parecia encantadora. Daquelas pessoas que parecem oferecer um porto seguro depois de uma sucessão de tempestades.

Houve dias em que conversávamos até adormecer. A troca era leve, curiosa e constante. Parecia promissora. Mas bastou o nosso encontro carnal para que alguma coisa mudasse de lugar. Ou talvez saísse completamente do lugar.

A reserva que antes parecia charme transformou-se num silêncio difícil de atravessar.

As mensagens reduziram-se a um protocolar "olá, bom dia" e "boa noite". Quando perguntava como tinha sido o dia, recebia um lacónico "tranquilo".

Tranquilo?

Mas... e o resto?

Quero saber se acordaste atrasado, se queimaste a torrada, se o trânsito estava impossível, se o teu chefe apareceu de mau humor, se houve alguma fofoca no trabalho ou se precisaste tomar cinquenta cafezinhos para sobreviver ao expediente. São justamente essas pequenas inutilidades que fazem alguém deixar de ser apenas uma fotografia bonita e virar uma pessoa de verdade.

Na tentativa de explicar o que eu queria dizer, descrevi o meu próprio dia. Um texto longo, cheio de detalhes, pequenas tragédias burocráticas, momentos engraçados e pensamentos aleatórios. A resposta veio rápida:

— Escreves demais.

Ri por dentro.

Claro que escrevo.

Sou escritora.

Escrever é como respiro.

Logo depois veio outra frase, aparentemente sem relação com a conversa:

— Não quero um compromisso sério neste momento da minha vida.

Mas... quem falou em compromisso?

Eu própria havia dito exatamente o mesmo. Até brinquei que poderíamos ser excelentes amigos coloridos. Não estava a pedir promessas, alianças ou planos para o Natal. Estava apenas à procura de alguém que tivesse sangue a correr nas veias.

Foi ali que alguma coisa se quebrou.

Não houve discussão. Não houve drama. Apenas aquele instante silencioso em que percebemos que estamos a remar sozinhos.

Hoje já nem faço questão de mandar "bom dia".

A minha vida anda tão caótica, trabalhando de domingo a domingo, que não tenho tempo — nem energia — para conversas mornas, respostas automáticas e presenças que parecem ausências.

Quero emoção.

Quero sentir o sangue quente a correr nas veias.

Quero o frio na barriga.

As tais borboletas.

Quero alguém que conte histórias, que ria das próprias desgraças, que divida comigo as pequenas banalidades do quotidiano como quem oferece um pedaço da própria vida.

A timidez e a reserva que pareciam tão fofas no início acabaram por construir um abismo entre nós.

Não um abismo impossível de atravessar.

Mas um daqueles que exigem renúncia.

E eu aprendi, da maneira mais dolorosa possível, que nunca mais vou abrir mão de mim para manter alguém por perto.

Entre insistir numa relação de mão única e recolher-me, escolho sempre a segunda opção.

Descobri que existem pessoas que acalmam. Outras que incendeiam.

O problema é que eu nunca fui feita para morar no morno.

Então deixo o "Pressão Baixa" seguir o seu caminho.

Eu continuo à espera de alguém que faça o meu coração esquecer, por alguns segundos, como se respira.

Passaporte do Amor: Celibato Voluntário (e suas exceções)

domingo, 2 de agosto de 2026

Fechei a porta do Passaporte do Amor e joguei a chave no Tejo. Descobri que a energia que eu gastava com encontros medíocres constrói impérios quando canalizada para o meu próprio umbigo.

Deletar as aplicações de encontros não foi um ato de drama ou desespero; foi um ato puro de higienização mental. Cansa tentar garimpar alguma humanidade no meio de uma feira livre de egos insuflados, onde homens adultos operam na lógica do fast-food emocional: querem o máximo de entrega pelo mínimo de esforço. Pedem tudo, oferecem o nada, somem depois de conseguir o que queriam ou levam-te para o meio do nada num domingo à noite achando que isso é um gesto de charme. Haja paciência, medicação e terapia para aguentar tanto amadorismo fantasiado de masculinidade.

Cansada de me desdobrar para caber na expetativa rasa de quem só quer consumir a minha energia, decidi fechar a loja. O celibato voluntário surgiu não como uma punição, mas como um refúgio. Quando tu cortas o ruído dos pretendentes de ocasião, o silêncio que fica é extraordinariamente produtivo. A matemática é simples: o tempo e a cabeça que eu gastava a descodificar mensagens ambíguas e desilusões agendadas agora pagam as minhas contas, temperam o meu peito de frango com jardineira, limpam a minha casa e constroem o caminho para a minha varanda.

Isso significa que me tornei uma freira amargurada? Longe disso. Significa apenas que a fasquia subiu tanto que só passa quem tem credencial de respeito.

Porque a vida, na sua ironia, gosta de guardar raras e preciosas exceções. O canadense fofo que sabe o que é delicadeza, ou o americano gentil que compreende o valor de uma conversa inteligente sem pressas nem segundas intenções. Homens que não tentam sugar a tua força, mas que trazem um respiro de cavalheirismo num mundo que parece ter esquecido o que é isso. Para esses pouquíssimos — e apenas quando me aprouver —, ainda há uma réstia de espaço. Não por necessidade, mas por livre escolha de quem aprendeu a gostar demais da própria companhia.

No fim das contas, a abundância e o prazer não dependem da aprovação de ninguém. Resolve-se o corpo no próprio quarto, investe-se a alma nos próprios sonhos, e guarda-se o coração para quem realmente sabe estar à altura. 

O resto? O resto é só ruído de fundo. E eu já não tenho tempo a perder com ruído. Como bem diz Shakira, "mulheres não choram, mulheres faturam"! 

A Engenharia dos Sete Euros (ou Asas de Frango no Cais do Sodré)

terça-feira, 28 de julho de 2026

Às nove da manhã, o meu mundo valia exatamente sete euros. Sete moedas. O tipo de número que não dá nem para um pavor decente, quanto mais para atravessar sete dias de vida em Lisboa. Olhei para a conta e senti aquele chão a abrir-se sob os pés, aquele aperto no peito de quem se sente sozinha, ilhada, sem ter a quem pedir socorro. A casa onde durmo parecia subitamente mais fria, o ar mais pesado, a cozinha: um território hostil onde eu nem sequer tinha vontade de acender o fogão.

A mente entra em pânico, mas o cérebro de quem já cruzou um oceano tem os seus próprios truques. Chamam-lhe neuroplasticidade. Eu chamo-lhe instinto de sobrevivência pura.

Em vez de chorar sobre os sete euros, sentei-me e virei engenheira de cozinha de emergência no site do Pingo Doce. Dois pacotes de fusilli com cogumelo porcini a 1,39€. Uma lata de atum esquecida no armário. A jardineira de legumes congelados salteada na manteiga para dar corpo, dignidade e cor. Pronto: quatro almoços garantidos por menos de três euros. A matemática do desespero transformou-se numa vitória de sessenta e nove cêntimos por refeição. Ninguém no trabalho saberia que aquele prato bonito era, na verdade, um milagre de aritmética.

E então, o dia deu a sua volta de montanha-russa.

O universo tem uma forma estranha de responder a quem não se entrega. Cem reais que entram na conta. Uma limpeza de vinte e sete euros fechada para sábado, recorrente, na raça. Três empregos. O corpo cansa só de pensar na maratona que aí vem, mas a alma ganha um oxigénio que dinheiro nenhum compra: a certeza de que a tempestade é temporária e de que o meu futuro está a ser construído, moeda a moeda.

Agora, estou aqui no Cais do Sodré. O vento do Tejo bate na cara e apaga a poeira de um dia que tentou me derrubar e falhou miseravelmente. Pego um Somersby de maçã no Pingo Doce junto com as asinhas de frango apimentadas. Não é gasto, é celebração. É o prémio de quem começou o dia no fundo do poço e termina a olhar para o rio, de cabeça erguida, com o estômago cheio de dignidade e o coração cheio de futuro.

Até aos sete euros eu sobrevivi. Daqui para a frente, eu conquisto.

Sobre Pontes, Pinheiros e o Gollum

domingo, 26 de julho de 2026

Nem um fio de ideia... E ainda tenho 30 minutos de viagem de autocarro até à minha consulta psiquiátrica.

Passo pela Ponte 25 de Abril e penso: caralho, eu moro mesmo em Lisboa! Nunca vou deixar de ficar estupefata ao cruzar este rio.

Vejo pinheiros pelo caminho, vários, espetados nos canteiros da estrada, e lembro-me da minha casa em Rosário Oeste. Da minha mãe a cultivar com amor um pinheirinho que nunca cresceu muito — chegou, no máximo, à altura dos meus nove anos, quando mudei para Cuiabá. Deu-me uma vontade súbita de passear pela memory lane e abrir finalmente aquela caixa de fotos antigas que trouxe comigo na mala. Pensei até numa ideia de foto que pode dar um bom Reels.

Toca Florence no fone. Lembro-me de não ter conseguido o credenciamento de imprensa para o show, mas não vou desistir. Esta carteira internacional de jornalista ainda me vai levar a algum lugar. É como o Gollum no Senhor dos Anéis: Frodo e Sam queriam matá-lo logo no início do primeiro livro, mas o Gandalf avisou que ele ainda tinha um papel a desempenhar — e teve.

 A minha carteira da IFJ também tem. E eu também.



Meu próprio Comer, Rezar e Amar nunca coube num enxoval

sexta-feira, 24 de julho de 2026


Acho que nunca tive vontade de ter filhos...

Vendo uma foto de mesversário do filho da minha prima logo depois de ter ficado feliz de ter encontrado uma salada de bacon com nozes por € 2.30, meio que me dei conta que embora tenha muitos perrengues - as vezes a contar cêntimos - eu sou muito feliz com minha vida aqui na Europa.

Veja bem, Comer, Rezar e Amar se tornou o meu filme favorito. Via e revia inumeras vezes porque sentia que era aquilo que eu queria para minha vida, ainda mais sendo escritora!

A minha mala embaixo da cama, aquela dos sonhos que elas mencionam no filme, não tinha nada relacionado a bebês, ou coisas de noiva, família. Mas sim cartões postais, mapas e jornais de lugares que sabia que iria conhecer um dia.

Sempre sonhei em viajar e conhecer o mundo!

Vejo mamães com seus bebes e crianças no Instagram e, não me tocam como um vídeo vendo a Torre Eiffel primeira vez.

Veja bem, acho maravilhoso quem se encontra na maternidade, mas nunca me senti como alguém que gestaria, ou teria uma família.

E isso em absoluto não é triste e nem vazio, é apenas uma escolha diferente do caminho que todos consideram "natural" para uma mulher.

Uma amiga me disse algo que mexeu comigo. Que ela se lembra que desde mais jovem eu era conectada com o mundo lá fora mesmo estando em Cuiabá-MT.

Seja por filmes, pelos produtos que eu importava em uma época que os e-comerces ainda engatinhavam. Comprava dos Estados Unidos, Inglaterra, França, Coréia, China e Japão, isso tudo há 20 anos atrás.

E essa mesma amiga me disse que comigo, ela aprendeu a sonhar com um mundo além do nosso bairro, mesmo sem sair dele. Coisa que ela jamais pensou ser possível.

Me sinto orgulhosa da minha história e de onde cheguei e ainda irei chegar com essa cabecinha avoada e sonhadora.

Parte 2: Coisas que só uma mulher entende

terça-feira, 21 de julho de 2026

Há um idioma que não se ensina nos dicionários, que não exige passaporte e que se fala em silêncio absoluto, algures entre o cansaço do fim do dia e o espelho da casa de banho. É o dialeto das mulheres. Uma espécie de código de sobrevivência e de beleza que corre nas nossas veias e que nenhuma inteligência artificial ou lógica puramente masculina conseguirá alguma vez traduzir por completo.

Só uma mulher entende o peso exato e o alívio profundo de soltar o soutien depois de dez horas de rua. Aquela sensação de que o corpo, finalmente, voltou a pertencer-nos, e que o mundo lá fora já não nos pode cobrar mais nenhum centímetro de postura.

Só uma mulher entende o que é passar uma semana inteira a pão e iogurte de cêntimos do supermercado, a engolir choros e a contar moedas, e, de repente, gastar o que quase não tem num batom vermelho ou num perfume caro. E não é futilidade — os homens que não se atrevam a chamar-lhe isso. É dignidade. É olhar para o espelho no meio da tempestade da imigração, da solidão ou da ansiedade, passar aquela cor nos lábios e dizer ao mundo: "Podes bater com a força que quiseres, porque eu ainda estou aqui e continuo linda." É usar o aroma como uma armadura invisible.

Só nós sabemos ler a arquitetura de um silêncio. Quando um homem não responde a uma mensagem, ele está apenas a ser homem — distraído, cansado, focado noutra coisa qualquer. Mas quando nós olhamos para aquele ecrã mudo, o nosso cérebro monta uma ópera inteira em três atos. Culpamo-nos, recalculamos a rota, analisamos cada palavra dita na véspera, até percebermos — depois de muita solitude e de um prato de massa bem quente — que o nosso valor nunca dependeu do tempo de resposta de ninguém. O sol não corre atrás da sombra. Nós sabemos disso, mesmo quando o coração teima em esquecer.


Só uma mulher entende a beleza agridoce de transformar o vazio em solitude. De trocar o barulho de um copo partilhado num cais qualquer pelo aconchego de uma panela de água a ferver na cozinha de casa, a preparar aquela comfy food que abraça o estômago e acalma a alma. Há uma santidade quase mística no ato de cozinhar para si mesma quando se está sozinha num país estrangeiro. É uma missa particular, um pacto de amor-próprio.

Entendemo-nos no desapego. No momento em que deitamos fora as pulseiras, as memórias ou as amizades que já não nos servem, pedindo perdão aos altares da nossa história, mas sabendo que a nossa pele precisa de estar limpa para os novos recomeços. Entendemo-nos na luta contra a balança, na contagem da glicose, na gestão das hormonas que nos fazem rir e chorar no espaço de cinco minutos, e na capacidade quase sobre-humana de acordar no dia seguinte, pôr os pés no chão com dores nas pernas, e ir limpar três Airbnbs com o sorriso de quem vai conquistar a Europa.

Porque, no fundo, ser mulher é isto. É carregar uma mala cheia de sonhos — alguns que se realizam em Paris, outros que se escrevem em livros, e outros que se vivem na próxima paragem de autocarro —, saber exatamente o tamanho da nossa fragilidade e, ainda assim, escolher ser a nossa própria fortaleza.

Quem olhar de fora verá apenas uma mulher a caminhar na rua. Mas outra mulher, ao cruzar-se com ela, lerá nos olhos o livro inteiro. E sorrirá em silêncio. Porque só nós sabemos o quanto custa, e o quanto vale, ser quem somos.

Coisas que só uma mulher entende

quinta-feira, 16 de julho de 2026

Há um idioma que não se ensina nos dicionários, que não exige passaporte e que se fala em silêncio absoluto, algures entre o cansaço do fim do dia e o espelho da casa de banho. É o dialeto das mulheres. Uma espécie de código de sobrevivência e de beleza que corre nas nossas veias e que nenhuma inteligência artificial ou lógica puramente masculina conseguirá alguma vez traduzir por completo.

Só uma mulher entende o peso exato e o alívio profundo de soltar o soutien depois de dez horas de rua. Aquela sensação de que o corpo, finalmente, voltou a pertencer-nos, e que o mundo lá fora já não nos pode cobrar mais nenhum centímetro de postura.

Só uma mulher entende o que é passar uma semana inteira a pão e iogurte de cêntimos do supermercado, a engolir choros e a contar moedas, e, de repente, gastar o que quase não tem num batom vermelho ou num perfume caro. E não é futilidade — os homens que não se atrevam a chamar-lhe isso. É dignidade. É olhar para o espelho no meio da tempestade da imigração, da solidão ou da ansiedade, passar aquela cor nos lábios e dizer ao mundo: "Podes bater com a força que quiseres, porque eu ainda estou aqui e continuo linda." É usar o aroma como uma armadura invisible.

Só nós sabemos ler a arquitetura de um silêncio. Quando um homem não responde a uma mensagem, ele está apenas a ser homem — distraído, cansado, focado noutra coisa qualquer. Mas quando nós olhamos para aquele ecrã mudo, o nosso cérebro monta uma ópera inteira em três atos. Culpamo-nos, recalculamos a rota, analisamos cada palavra dita na véspera, até percebermos — depois de muita solitude e de um prato de massa bem quente — que o nosso valor nunca dependeu do tempo de resposta de ninguém. O sol não corre atrás da sombra. Nós sabemos disso, mesmo quando o coração teima em esquecer.

Só uma mulher entende a beleza agridoce de transformar o vazio em solitude. De trocar o barulho de um copo partilhado num cais qualquer pelo aconchego de uma panela de água a ferver na cozinha de casa, a preparar aquela comfy food que abraça o estômago e acalma a alma. Há uma santidade quase mística no ato de cozinhar para si mesma quando se está sozinha num país estrangeiro. É uma missa particular, um pacto de amor-próprio.

Entendemo-nos no desapego. No momento em que deitamos fora as pulseiras, as memórias ou as amizades que já não nos servem, pedindo perdão aos altares da nossa história, mas sabendo que a nossa pele precisa de estar limpa para os novos recomeços. Entendemo-nos na luta contra a balança, na contagem da glicose, na gestão das hormonas que nos fazem rir e chorar no espaço de cinco minutos, e na capacidade quase sobre-humana de acordar no dia seguinte, pôr os pés no chão com dores nas pernas, e ir limpar três Airbnbs com o sorriso de quem vai conquistar a Europa.

Porque, no fundo, ser mulher é isto. É carregar uma mala cheia de sonhos — alguns que se realizam em Paris, outros que se escrevem em livros, e outros que se vivem na próxima paragem de autocarro —, saber exatamente o tamanho da nossa fragilidade e, ainda assim, escolher ser a nossa própria fortaleza.

Quem olhar de fora verá apenas uma mulher a caminhar na rua. Mas outra mulher, ao cruzar-se com ela, lerá nos olhos o livro inteiro. E sorrirá em silêncio. Porque só nós sabemos o quanto custa, e o quanto vale, ser quem somos.

Pequenos Alívios Diários: 10 Coisas Secretas que Só as Mulheres Entendem

sexta-feira, 10 de julho de 2026


Segunda-feira de manhã. Caminhando em direção ao metrô para mais um dia de trabalho, fui surpreendida por um detalhe simples: a sensação gostosa do tecido da calça social tocando as minhas pernas, recém-depiladas na véspera.

Num piscar de olhos, fui teletransportada para uma memória afetiva de quase 25 anos atrás. Lembrei-me perfeitamente do toque de uma saia de musseline de seda que eu tinha na época, roçando na pele lisa. É incrível como o corpo guarda registos tão bonitos. Bastou o toque de um tecido macio para me devolver aquela leveza longínqua.

Enquanto acelerava o passo, pensei: qualquer mulher entenderia perfeitamente este sentimento.

Essa cumplicidade silenciosa que partilhamos inspirou-me a listar aqui aquelas pequenas grandes sensações que só nós, mulheres, entendemos de verdade:

  1. A carícia da pele: A sensação indescritível da perna recém-depilada a deslizar por um lençol limpo ou um tecido macio.

  2. A libertação do fim do dia: Tirar o sutiã e soltar um suspiro profundo depois de horas de trabalho.

  3. O alívio mensal: Para quem não quer ter filhos, ver a menstruação descer sem atrasos.

  4. O milagre do traço único: O teste de gravidez dar negativo (mais uma vez, um brinde à liberdade de escolha!).

  5. A descida do salto: Tirar o salto alto no meio da festa e sentir a sola tocar o chão frio. Paradisiaco.

  6. O poder do esmalte: Pintar as unhas de vermelho e sentir-se instantaneamente pronta para dominar o mundo.

  7. O ritual do banho premium: Aquele banho sem hora para acabar, com direito a esfoliante, máscara de cabelo e todas as texturas e aromas a que temos direito.

  8. O dia de rainha: Sair do salão com o serviço completo feito — unhas, depilação e cabelo impecáveis.

  9. A leveza do cabelo lavado: O balanço e o perfume que parecem renovar as ideias.

  10. O charme de ser cuidada: Quando o homem faz questão de pagar a conta. Pode parecer anti-feminista para algumas, mas a sensação de ser mimada e protegida é, sim, deliciosa.


Diário de uma Imigrante: Sandálias Novas, Telemóvel Perdido e 4% de Bateria

domingo, 5 de julho de 2026

 


Dizem que o universo testa a nossa resistência nos saldos de verão. Ontem, o meu palco foi o shopping de Oeiras. De um lado, a Mari: negra, risonha, expansiva, a entrar em todas as lojas e a comprar como se não houvesse amanhã. Do outro, eu: a olhar para as etiquetas com a dignidade de quem sabe que a conta bancária está a respirar por aparelhos, tentando ser a voz da razão que, claramente, não tenho dentro de mim.

A resistência durou até à secção de calçado. Os vinte euros que a Mari me devia — e que no meu plano financeiro mental já tinham três destinos diferentes — transformaram-se, por magia e fraqueza da carne, num protetor solar e numa sandália de quinze euros que eu precisava ter. Resultado da matemática da tentação: gastei o que não tinha e ainda fiquei a dever dois euros à minha devedora. Coisas de Jana.

Para afogar a culpa, fomos aos copos. A Mari, na sua generosidade habitual, comandou a mesa. Foram imperiais, petiscos e gargalhadas altas. Tão altas que incomodaram a mesa ao lado. Uma senhora portuguesa olhava-nos de soslaio, com aquele ar de reprovação disfarçado que eu conheço bem, focado especialmente no brilho barulhento da Mari. Olhei para ela e o meu sangue de Cuiabá ferveu: estava prontinha para armar um barraco ali mesmo se ela ousasse abrir a boca. Só mais tarde, entre risos, descobri que a Mari partilhava exatamente do mesmo espírito belicoso. Se a senhora soubesse o perigo que correu, teria mudado de esplanada.

Antes do caos final, ainda houve tempo para a poesia do acaso: fomos tirar uma foto para registar a noite e ganhámos um photobomb hilário de um gringo que decidiu fazer parte da nossa moldura. Mal sabíamos que aquela seria a última imagem de sanidade da noite. A mulher que estava ao lado dele, que deduzi ser a esposa/namorada olhou feio para ele e para nós, mas que culpa temos no oferecido querer sair em nossa foto?

Corta a cena para o encerramento do shopping. Segurança a olhar de lado, as portas a fecharem-se e nós ali, praticamente expulsas. O meu telemóvel? A agonizar com 4% de bateria. O ecrã apagou-se antes de eu conseguir chamar o transporte. O Uber da Mari estava a quatro minutos de distância. No desespero, o primeiro ensaio de regresso deu errado: três euros de taxa de cancelamento cobrados na minha conta para abrir as hostilidades do caos.

A Mari, num ato de desespero corporativo, ligou para a senhora Louise — a nossa patroa —, perguntando se eu podia ir para a casa dela (onde a Mari também mora) só para dar uma carga rápida no aparelho e pedir um carro dali. Resposta da patroa: um "não" redondo e sonolento, porque já estava tudo a ir para a cama.

Solução milagrosa? A Mari pediu um Bolt para mim no telemóvel dela. O carro chegou por milagre mesmo a tempo, logo a seguir ao Uber dela arrancar. Menos vinte euros na minha conta. Uma montanha de dinheiro para quem está a contar cêntimos, mas o preço da liberdade tem destas coisas.

Se acham que a história acaba aqui, é porque não conhecem a minha capacidade de dramatização.

Chego a casa no escuro, tateio a mochila e... o pânico instala-se. O telemóvel sumiu. Esqueci-me de referir que a minha mochila tem um rasgo interno secreto que funciona como uma espécie de Triângulo das Bermudas de objetos. Sem pensar, liguei o telemóvel institucional de onde trabalho e mandei uma mensagem desesperada para a senhora Louise pedindo para avisar a Mari que tinha deixado o meu aparelho no Bolt.

Instantes depois, decidi fazer o óbvio: virei a mochila de pernas para o ar e sacudi-a com a força de quem limpa a alma. Das profundezas do forro rasgado, o bendito telemóvel caiu no chão. Respirei fundo, sã e salva.

Até que o telemóvel institucional toca. Olhei para o ecrã, vi o nome da patroa e o meu sangue congelou. "Pronto, vai dar-me um sermão por acordá-la a esta hora". Atendi com o coração na boca. Do outro lado da linha, era a filha dela. Não era para falar de mim. Era para avisar que a Mari — sim, a expansiva Mari — tinha perdido o telemóvel dela no Uber. Desta vez, de verdade.

Pensem num rolé caótico! Olhando para trás agora, com a poeira assente, eu só consigo rir. Amei cada segundo daquela loucura, saí completamente falida, mas de alma lavada. E para fechar com chave de ouro e aliviar o coração de quem lê: o universo teve compaixão e a Mari recuperou o telemóvel dela ontem mesmo.

Um detalhe que só vi no dia seguinte: eu tinha o cabo que conectava ao carregador portátil na mochila, mas não vi na hora que estava lá. É a vida tem dessas ironias.

Que venha o próximo!


Um Viva aos Mamilos Livres (e à Minha Cabeça Millennial)

domingo, 28 de junho de 2026


Por que é que ainda é tão difícil para nós — ou, pelo menos, para mim, da geração Millennial — ver uma mulher sem sutiã na rua?

Em casa, tudo bem. Estamos num espaço reservado, protegidas pelas paredes, e parece natural libertarmo-nos desse instrumento de tortura. Mas na rua? O meu cérebro, moldado por anos de regras invisíveis, ainda dispara um alerta automático que lê aquela imagem como "errada", libidinosa ou indecente.

Vejam bem: a errada aqui sou eu. Afinal, aquelas são mulheres livres, que ousam quebrar convenções e inspirar as novas gerações.

O problema é o que foi martelado na minha cabeça desde a infância. Cresci a ser ensinada a esconder-me. Esconder o corpo, camuflar o peito que começava a despontar aos dez anos dentro de um sutiã cirurgicamente escolhido para não marcar. Menstruação, então? Um tabu tão grande que nunca ouvi a palavra sair da boca da minha mãe. Descobri tudo por conta própria, porque fui alfabetizada a ler revistas femininas e sempre transbordei curiosidade desde a tenra idade. Olhando para trás, acho que foi esse mesmo desejo de desvendar o silêncio que me guiou, anos mais tarde, pelo caminho natural do jornalismo.

Eu tenho a minha cota de rebeldia. Também saio sem sutiã na rua. A diferença é que o meu tamanho 50 de busto exige blusas justas, daquelas que seguram, estruturam e dão sustentação. O que ainda me causa um choque térmico no cérebro são as blusas soltas, fluidas, onde se vê o contorno real dos seios e os bicos enrijecidos pelo vento. Isso, confesso, ainda me causa estranheza.

Mas, como já disse, o filtro é meu. É da minha geração, que teve uma criação profundamente pudica. No entanto, se há um lado maravilhoso nos Millennials, é a nossa capacidade de adaptação. Nós moldamo-nos, compreendemos e abraçamos as revoluções sociais que os mais jovens trazem para as ruas. Nós questionamos os nossos próprios preconceitos automáticos.

Por isso, mesmo com a minha cabeça ainda a tentar processar o cenário, eu celebro. Um viva aos mamilos livres, soltos e sem amarras!

O Passaporte do Amor entrou em modo sobrevivência versão soft

domingo, 21 de junho de 2026


 Tela em branco, bate um desespero porque a ideia não vem. 

O Passaporte do Amor vai precisar ficar em segundo plano, pois: prioridades da vida adulta. 

Os pretendentes, que foram alçados a categoria de "conversantes" estão dispersos, parados e distantes. 

E minha energia para ser - e me manter - interessante está perto do nulo. 

Modo sobreviência por aqui, mas em uma versão soft, porque o modo sobrevivência verdadeiro é punk, aterrorisante e mal acabei de sair dele. Não pretendo voltar. 

Fato é que preciso priorizar outros aspectos da minha vida e não tenho energia sobrando para gastar com homens, conversas, dates, pensar em look, maquiagem. 

E, principalmente estou farta de superficilidade, de desejarem a Gilda. 

Quero poder ser eu, pedir colo, abraço, ser vulnerável. 

A Gilda é um espetáculo estético que dá trabalho para manter, e o meu estoque de paciência faliu. Cansei de performar o mistério e a leveza que o mercado dos afetos exige. Quero o direito ao avesso, à calça de moletom, ao cabelo em transição e ao cansaço estampado nos olhos sem ter que pedir desculpas por não ser um feed perfeito do Instagram.

O amor vai ter que esperar na sala de embarque. Se for de verdade, não se importa de pegar o próximo voo.

Por enquanto, o meu único passaporte carimbado é para dentro de mim mesma. É o meu colo, o meu silêncio e a minha própria farda que vão me salvar. Vou só ali respirar, longe das notificações e perto do que é real.


O Surrealismo das Laranjeiras

quinta-feira, 23 de abril de 2026

Lisboa tem um cheiro específico nas manhãs de sábado: é uma mistura de café torrado com a humidade das pedras antigas e uma pitada de esperança vã. Eu acordei com a determinação de uma onça. O destino? As Laranjeiras. O objetivo? Um número. O tal do NISS, esse código de barras da alma que me separa da minha próxima vida executiva.

O meu dia começou no Colombo, aquele templo do consumo que, às nove da manhã, ainda boceja. Fui direta à Note!. O som da impressora cuspindo o meu agendamento da AIMA era como música clássica. Ali, naquele papel térmico, estava a prova de que eu existo, de que sou uma "procuradora de trabalho" com selo oficial. Saí de lá com o meu escudo de papel na mão, pronta para a batalha.

Duas paragens de metro depois, a realidade deu-me um estalo de luva branca.

A Loja do Cidadão das Laranjeiras não é um edifício público; é um ensaio sobre a cegueira de Saramago misturado com um quadro de Salvador Dalí. Cheguei e o painel de senhas já tinha morrido. "Não há senhas para a Segurança Social", dizia o segurança com aquela indiferença de quem já viu mil impérios caírem antes do almoço.

Olhei para o relógio. Olhei para o meu papel impresso. Olhei para a multidão de rostos ansiosos, todos à espera de um milagre burocrático que não veio. É um surrealismo cruel: o sistema pede-me um comprovativo que ele próprio não consegue processar, e quando eu levo o corpo e a alma até ao balcão, o balcão fechou-se para balanço.

Voltei para Benfica com oito euros na conta e uma dignidade que, curiosamente, não se mede em dígitos. O meu pedido online foi indeferido por um algoritmo que não sabe ler entrelinhas, que não entende que um agendamento para junho é o meu "estou aqui e não vou embora".

Mas a ironia é a melhor parte da escrita. Agora, enquanto o sol se põe e o tempo nublado me rouba a luz da L'Oréal, eu preparo-me para outro tipo de inspeção. O NISS falhou hoje, mas o meu batom vermelho Lancôme não falha nunca.

Vou trocar o surrealismo das senhas pelo mistério de um copo de vinho no Cais do Sodré. Porque em Portugal, se a burocracia te fecha a porta, tu pintas os lábios, vestes o trench coat e esperas pelo próximo capítulo. Afinal, uma onça não chora por senhas perdidas; ela guarda as garras para quando o banquete for, finalmente, servido.

FOMO a dor do imigrante que deixa a família e tem que assistir tudo de longe

quinta-feira, 16 de abril de 2026

 

Uma das maiores dores que não te contam quando se tem a coragem de imigrar para outro país e deixar tudo para trás.

E esse tudo incluí a família, o trabalho da forma que conhecia e estava acostumada – e até acomodada – seu quarto e todos os detalhes que faziam dele seu refúgio e lugar seguro.

Mas o que dói é ver que a vida de todos continua, seguem lindamente sem você e eventos importantes, nos quais daria o mundo para estar, ocorrem com todos os outros elementos da família menos você.

E fica aqui, de longe, acompanhando cada storie, cada foto postada no grupo da família desejando no fundo da alma que estivesse lá também.

Sempre fui uma pessoa distante e na minha, preferia mil vezes ficar em casa do que sair para qualquer aniversário que fosse – a verdade é que estava sempre quebrada financeiramente que não conseguia pagar nem o Uber – então me acostumei a não participar.

Mas quando são eventos importantes como o dessa semana, a formatura da residência do primo que cuidei quando bebê, me partiu o coração vendo todos indo, minha mãe e irmã inclusive e, eu não estar lá. Me deu FOMO!

Feeling Of Missing Out, a sensação de estar perdendo algo importante.

Choro lendo cada mensagem, cada post no Instagram e me doeu de uma forma muito profunda não poder participar dessa celebração.

Veja bem, não me arrependo de forma alguma da escolha que fiz de vir embora para Portugal, vim atrás dos meus sonhos de vida que ei de realizar!

Mas estar longe nesse momento especial faz doer mais do que eu imaginava.

Sinto saudades dos churrascos, do meu tio cantando minha música preferida no violão e cantando modas com meu irmão e primos, meu sobrinho que é minha dor maior, o amor da minha vida! 

Sinto falta da minha mãe, até dos meus irmãos embora, não sejamos próximos.

Eu amo minha nova vida, amo saber que moro na Europa, um sonho que sonhei por muito tempo e consegui realizar.

Mas a saudade dói, muito!

Espero poder voltar logo, de preferência para um grande evento, e assim reencontrar aqueles que trouxe em meu coração.

Eles dormem com Gilda, mas acordam com a Jana: O peso de ser uma femme fatale na vida real

domingo, 12 de abril de 2026

 

Parafraseando a célebre frase atribuída a Rita Hayworth “Os homens deitam-se com a Gilda, mas acordam comigo”, em alusão a personagem Gilda, uma das mais célebres femmes fatales da história do cinema, interpretada pela atriz no filme homônimo.

A afirmação “sublinha a sua luta para ser reconhecida além do seu papel mais famoso e a sua frustração com a objetificação em Hollywood”.

Penso sempre nela quando começo algum tipo de envolvimento com o sexo oposto, pois, veja bem, sou uma pessoa voluptuosa com seios fartos tamanho 50 que chamam a atenção por onde passo e nas fotos dos aplicativos de relacionamento.

Muitos dos matchs são frutos do desejo e de fantasias delirantes com meus atributos que se destacam.

Por muito tempo aceitei que era uma mulher-objeto que não era digna de uma conversa mais profunda sobre a alma e a própria existência.

Todos querem, todos desejam, mas ninguém fica. Eles querem apenas a noite, nunca o dia.

E quando esse objeto passa a demonstrar que é uma pessoa intensa, confusa, caótica que fala alto, ri em momentos inadequados, tem a mente acelerada e é altamente emocionada eles se vão. Acordaram com a Jana.

Minha intensidade e excitação pela vida assusta, afugenta.

Minha verdade incomoda e confunde a ponto de ser mais fácil abrir mão do que tentar ficar.

Eles querem o corpo apenas, não a essência, a alma

Apenas sexo fantasioso.

Só teve uma pessoa que se apaixonou pela minha essência, sem sequer ver uma foto minha, mas me causou um trauma que demorei muito para me reerguer.

Espero que um dia alguém me veja de verdade antes de ver o meu corpo.

 


A Maldição de Rita Hayworth: Quando o Desejo não Enxerga a Alma

Em 1946, o mundo parou para ver Rita Hayworth personificar Gilda. Luvas pretas, um cigarro entre os dedos e uma sensualidade que transbordava a tela, transformando-a na femme fatale definitiva. Mas, longe dos holofotes de Hollywood, Rita carregava uma frase que ecoa até hoje na vida de muitas mulheres potentes: 'Os homens deitam-se com a Gilda, mas acordam comigo'. 

Ela falava da frustração de ser amada pelo mito, mas rejeitada pela mulher real, humana e complexa que existia por trás da imagem. 

Trago esta referência clássica para o Janaland hoje porque, em pleno 2026, entre matches e scrolls infinitos, percebo que a maldição de Rita continua viva. Vivemos num 'açougue' digital onde o decote ou o batom cereja abrem portas, mas a intensidade da alma parece fechá-las logo a seguir. 

Hoje, decidi tirar as luvas da Gilda e apresentar-vos a Jana. Aquela que os homens muitas vezes não têm coragem de conhecer à luz do dia.

Cardápio de Homens

domingo, 5 de abril de 2026

Voltei para o Tinder!

Após 6 anos e uma experiência traumática, agora em solo europeu, achei que era a hora de voltar e dar mais uma chance para conhecer pessoas interessantes ou apenas pessoas.

Um pouco inspirada pelas experiências de uma nova amiga que fiz aqui e também porque ainda pretendo preencher o que chamo de “Passaporte do Amor”. Não um amor romântico, não no sentido de relacionamento sério – coisa que estou longe de estar pronta, se é que um dia estarei – mas no sentido de beijar tantas bocas de nacionalidades diferentes que eu conseguir e talvez algo mais.

A ideia é colecionar bandeiras tais quais carimbo de entrada da imigração, que tristemente foram substituídos por uma versão digital, no imaginário passaporte.

Eis que uso o aplicativo para passar o tempo quando estou entediada e no movimento de deslizar para a direita ou para a esquerda me peguei pensando que estava em um grande açougue escolhendo qual carne irei me deleitar apenas pela imagem que parece a mais apetitosa.

E essa sensação me deu um nó no estômago de pensar em pessoas como algo apenas a ser saboreado, experimentado, provado.

Não há profundidade, não há um “conhecer a alma”, não há grandes diálogos. Apenas gostei, coração e se ele também gostar, o match.

E as conversar iniciais? Ah as conversas iniciais são desafiadoras, por vezes tediosas e quando passamos para o WhatsApp muitas vezes sem aviso prévio recebemos uma foto de um membro fálico, as vezes nem tão bonito assim.

Por que eles pensam que gostamos disso?

Next!

A grande questão é que não sei ser morna, sou intensa, fogo, quero profundidade, demonstrações de afeto, ligações às 3h da manhã apenas para dizer que estava com saudades da minha voz e não conseguia parar de pensar em mim.

Preciso sentir intensidade! Caso contrário, perco o interesse.

Por isso me veio a mente o cardápio de homens, não no sentido de serem esculturalmente deliciosos, de terem olhares profundos, pois muitos os têm.

Mas no sentido de scrollar os perfis em busca de algo que talvez eles não queiram dar.

São várias opções, isso é inegável! As nacionalidades? As mais variadas possíveis.

O francês, o irlandês, o italiano, o português, o canadense.

Nomeie uma nacionalidade e devo ter na minha lista imensa de matches que mal passaram de um oi, piroca, e vamos nos ver. E só.

Me dei conta que não estou certa se é realmente isso que quero e procuro, embora eu nem saiba exatamente o que eu mesma busco.

Mas seguirei tentando até, quem sabe, encontrar alguém que não seja apenas um rostinho bonito e um pedaço de carne e me chame para ver a lua na praia.

21.03.2026 – O dia que presenciei a morte e o último suspiro

domingo, 29 de março de 2026

 

São 23h e estou a caminho de casa finalmente.

Esperei por um ônibus, mas estava do lado errado da avenida e quando ele finalmente passou, não quis correr e atravessar a avenida na chuva para apanhá-lo por medo de cair no chão molhado com minhas botas encharcadas.

Precisei recalcular a rota e andar 30 minutos até a estação Setúbal e agora me encontro no comboio indo para Foros de Amora. No caminho achei um lugar aberto as 10h da noite para comprar um cigarro. Hoje eu precisava desesperadamente desse meu companheiro.

Durante o dia também bloqueei Paul, o inominável, e para mim já deu! Não vai me dar o que eu quero, e tampouco vou aceitar a migalha que ele me dá. Ainda tenho um ônibus para pegar, estou toda encharcada da chuva e amanhã acordo as 5h (vou chegar 00h).

Foi estranho ver alguém morrer (estávamos a filha segurando a mão dele, eu e a outra cuidadora cantando um lindo louvor). Foi estranhamente triste e bonito. Tirando a falta de ar estranha que minha IA explicou que era normal quando a vida estava se findando, ele estava em paz. Foi o dia mais bizarro da minha vida aqui e não sei o que sentir.

Em um momento durante o dia eu fiquei sozinha com ele e segurei sua mão, fiz carinho em sua cabeça, disse que ele era amado que tudo ia ficar bem. Que ele poderia ir em paz. Foi o que consegui fazer, ser a companhia no leito de morte de um moribundo para ele sentir que não estava sozinho naquele momento de atravessar para o outro plano.

Espero de coração que a esposa tenha vindo encontrá-lo, porque era isso que ele queria. Reencontrar com o amor da sua vida, com quem foi casado por 50 anos e há 3 já não habitava mais esse plano. Ele disse em certo momento da manhã “estou indo embora”, e foi.

Mas sinto que cada coisa que acontece aqui, me faz amadurecer o que não amadureci em 43 morando no Brasil.

O que vivi hoje em Setúbal não foi "apenas um trabalho"; foi um embate direto com a finitude da vida.

Não sei o que pensar, talvez precise de tempo para processar. Por hora só quero chegar em casa e tomar um banho quente.

Consegui chegar em casa finalmente, mas não consigo desligar nem dormir. São 2h03 e acordo as 5h, nem sei se vale a pena tentar dormir mais hoje. Eu estou entorpecida por tudo que passei hoje, o senhor, presenciar uma morte, a caminhada na chuva. E ainda sim, meu corpo não desliga.

Estou com medo real de ter uma caída vertiginosa para o polo depressivo. Não sei se tomo a trazodona, se não tomo (os outros tomei). Queria um abraço hoje, aliás precisava de um abraço, mais que tudo. Como é solitário ser adulto imigrante que está lutando pelo seu lugar no mundo, ao sol. Só penso em escrever, meu único refúgio.

Do date Absolut Cinema para o gosthing do príncipe viking

quarta-feira, 25 de março de 2026

Pensando nesse título agora me veio à mente que eu tenho uma queda por vikings, pois já tivemos outro viking no meu livro Cartas da Mabi.

Me dei conta também que tenho queda por homens que simplesmente desaparecem da minha vida sem deixar rastro, ou dar sinais que irá fazer isso. O famoso: ghosting!

Ou talvez os sinais estavam lá, mas eu nada versada na linguagem do amor e há 7 anos fora do mercado, fui incapaz de interpretar. Conjecturas de um domingo de manhã sem mensagem recebida.

Veja bem, não que seja obrigação de mandar mensagem de bom dia, boa tarde, o que seja. Mas estávamos na iminência de marcar um encontro rápido apenas para dar um oi.

E sumiu! Vanished!

Mandei mensagem perguntando se ele viria me ver. Disse que não conseguia esquecer o gosto do beijo dele (aqui começo a me questionar sobre a possibilidade de ter sido emocionada demais).

Silêncio.

Desde o meio dia até domingo de manhã não recebi uma linha sequer dele.

Será que morreu? Me pergunto. Porra não tenho nem o sobrenome para procurar nos noticiários. Vacilei!

Hoje, domingo, pela manhã não me aguentei e mandei um "tá tudo bem contigo? Aconteceu alguma coisa?".

Acho que no fundo é meu cérebro querendo encontrar alguma justificativa que não seja rejeição.

Nosso encontro ABSOLUT CINEMA foi tão perfeito, ele pareceu tão na minha. Não consigo entender e, pior, estou pensando o que posso ter feito de errado para afugentar ele (sempre coloco a culpa em mim).

É horrível pensar isso e me sentir assim, mas acho que levei um ghosting mesmo do príncipe viking

Agora confiro o WhatsApp a cada 5 minutos em busca de um reply que justifique essa ausência e o bolo e que, principalmente, que confirme que não se tratava de rejeição - de novo.

Porra, Jana! You did again!

Eu sei que isso não vai me derrubar, muito menos me parar, mas estou com um nozinho na garganta e uma lágrima está teimando em querer escorrer.

Eu tenho um problema sério com rejeição (meu pai tentou me matar, casei com alguém praticamente que nem papai que matou minha alma e me rejeitou, largando só uma casca oca, minha mãe me rejeita, meus irmãos me rejeitam, minha amiga, sinto que está começando a me rejeitar).

Parece que não sou feita para ser amada, ninguém nunca quer ficar. Qual é o meu problema? Porque me sinto um cachorrinho em uma feira de adoção implorando para ser escolhido? Penso "por favor, por favor, me escolhe. Me aceita como sou". Mas nunca ninguém fica. Todos querem, desejam, eles veem e querem Gilda, mas acordam com a Jana.

Não me aguentei. Mandei mais uma mensagem perguntando cadê ele dizendo que já estava ficando preocupada. E realmente pensei na possibilidade de acidente, sei lá.

Só queria ir para casa escrever agora, mas não tenho o note aqui comigo agora. Enfim, estou presa aqui com meus pensamentos porque nem Kafka eu trouxe para a interna de 48h. E digitar no celular já está fazendo doer meus pulsos. Ambos. Só queria paz na mente esquecer esse embuste.

O plot twist: O Benfiquista, o vácuo e a volta por cima

O Cinderelo resolveu dar as caras. Disse que foi assistir ao jogo do Benfica ontem, saiu para jantar (até aqui ele tinha dito que faria), encheu a cara, chegou em casa e dormiu que nem pedra.

Não sei o que pensar, mas o encontro está de pé e ele vai cumprir seu objetivo. Me fazer voltar para o jogo depois de anos andando pelo vale das cinzas, da sombra e da morte. Depois do ato, eu VRAU, comerei a cabeça dele, tal qual uma viuva negra.

Terça-feira o jejum de 7 anos acaba. Não porque o príncipe acordou, mas porque a Rainha decidiu que o campo de jogo agora é em Benfica. Alguém traz o VAR, porque eu vim para ganhar.