
Queridas, hoje eu queria compartilhar com vocês — e com a minha psicóloga — uma das maiores vitórias da minha vida, daquelas que a gente só consegue enxergar quando para de verdade para olhar para si.
Agora há pouco, me peguei aqui no meu quarto, no escuro, completamente sozinha. E me veio um filme na cabeça. Pensar que até os meus 25, 30 anos, eu simplesmente não conseguia dormir sozinha em um quarto, muito menos com a luz apagada. Eu não suportava a solidão. Quando o meu ex-marido viajava, eu passava a noite inteira em claro, consumida pelo medo e pela ansiedade. Naquela época, eu ainda não tinha o meu diagnóstico de transtorno afetivo bipolar e não fazia o tratamento adequado.
Olhar para onde estou hoje e ver o quanto a minha vida mudou é algo que me emociona profundamente. E eu tenho total clareza de que essa transformação só foi possível porque eu recebi o diagnóstico correto, comecei a me tratar e a me acolher.
Eu passei a vida inteira acreditando que seria dependente de alguém para sempre. Nunca, nem nos meus sonhos mais distantes, imaginei que seria capaz de morar sozinha, cuidar de mim, dar conta de tudo, pagar meu aluguel, comprar minha comida, me sustentar e viver por conta própria — as coisas simples de um adulto comum que antes pareciam montanhas impossíveis de escalar.
Até a arquitetura do meu espaço físico mudou com a minha mente. Antigamente, a minha cama tinha que ficar obrigatoriamente colada na parede, como uma espécie de escudo para que eu conseguisse adormecer. Hoje, a minha cama fica no meio do quarto, livre, sem paredes me segurando de lado nenhum.
Se antes eu não conseguia passar uma noite sozinha no Brasil, hoje eu moro em um país estrangeiro, em um quarto que é só meu, e amo dormir no escuro profundo. Isso para mim é extraordinário. Sem o diagnóstico, sem a medicação e sem o processo terapêutico que me trouxe até aqui, nada disso seria possível.
Compartilho isso para lembrar a mim mesma — e a cada uma de vocês — do tamanho da nossa força quando decidimos nos tratar com cuidado, respeito e verdade. Hoje eu sou a minha própria fortaleza. E que paz que é descobrir isso.
Com muito carinho e gratidão, Jana.
*depoimento enviado o grupo de terapia Mulheres que Olham para Si