Parecia uma dessas raridades que a vida guarda para quando já desistimos de procurar. Luso-canadense, falava francês, gentil, educado e reservado numa medida que, no começo, parecia encantadora. Daquelas pessoas que parecem oferecer um porto seguro depois de uma sucessão de tempestades.
Houve dias em que conversávamos até adormecer. A troca era leve, curiosa e constante. Parecia promissora. Mas bastou o nosso encontro carnal para que alguma coisa mudasse de lugar. Ou talvez saísse completamente do lugar.
A reserva que antes parecia charme transformou-se num silêncio difícil de atravessar.
As mensagens reduziram-se a um protocolar "olá, bom dia" e "boa noite". Quando perguntava como tinha sido o dia, recebia um lacónico "tranquilo".
Tranquilo?
Mas... e o resto?
Quero saber se acordaste atrasado, se queimaste a torrada, se o trânsito estava impossível, se o teu chefe apareceu de mau humor, se houve alguma fofoca no trabalho ou se precisaste tomar cinquenta cafezinhos para sobreviver ao expediente. São justamente essas pequenas inutilidades que fazem alguém deixar de ser apenas uma fotografia bonita e virar uma pessoa de verdade.
Na tentativa de explicar o que eu queria dizer, descrevi o meu próprio dia. Um texto longo, cheio de detalhes, pequenas tragédias burocráticas, momentos engraçados e pensamentos aleatórios. A resposta veio rápida:
— Escreves demais.
Ri por dentro.
Claro que escrevo.
Sou escritora.
Escrever é como respiro.
Logo depois veio outra frase, aparentemente sem relação com a conversa:
— Não quero um compromisso sério neste momento da minha vida.
Mas... quem falou em compromisso?
Eu própria havia dito exatamente o mesmo. Até brinquei que poderíamos ser excelentes amigos coloridos. Não estava a pedir promessas, alianças ou planos para o Natal. Estava apenas à procura de alguém que tivesse sangue a correr nas veias.
Foi ali que alguma coisa se quebrou.
Não houve discussão. Não houve drama. Apenas aquele instante silencioso em que percebemos que estamos a remar sozinhos.
Hoje já nem faço questão de mandar "bom dia".
A minha vida anda tão caótica, trabalhando de domingo a domingo, que não tenho tempo — nem energia — para conversas mornas, respostas automáticas e presenças que parecem ausências.
Quero emoção.
Quero sentir o sangue quente a correr nas veias.
Quero o frio na barriga.
As tais borboletas.
Quero alguém que conte histórias, que ria das próprias desgraças, que divida comigo as pequenas banalidades do quotidiano como quem oferece um pedaço da própria vida.
A timidez e a reserva que pareciam tão fofas no início acabaram por construir um abismo entre nós.
Não um abismo impossível de atravessar.
Mas um daqueles que exigem renúncia.
E eu aprendi, da maneira mais dolorosa possível, que nunca mais vou abrir mão de mim para manter alguém por perto.
Entre insistir numa relação de mão única e recolher-me, escolho sempre a segunda opção.
Descobri que existem pessoas que acalmam. Outras que incendeiam.
O problema é que eu nunca fui feita para morar no morno.
Então deixo o "Pressão Baixa" seguir o seu caminho.
Eu continuo à espera de alguém que faça o meu coração esquecer, por alguns segundos, como se respira.

0 Comentários