Sem Filtro, Sem Química e Sem Passaporte

sábado, 3 de outubro de 2026

Sempre tive uma regra não dita no Tinder: fugir de homens que escondem o olhar atrás de óculos escuros. Quem esconde os olhos, quase sempre esconde a intenção. Mas quando a indicação vem de uma amiga querida — que garantiu ser um trabalhador, dono de uma empresa de limpezas e homem de bem —, decidi abrir uma exceção no meu rigoroso protocolo.

Ele mandou mensagem e, logo no primeiro contacto, sugeriu um jantar. Pontos para ele pela atitude. Pedi uma foto sem os famigerados óculos de sol e descobri um par de olhos claros. Mais um ponto na conta. Aos 48 anos, capixaba do interior do Espírito Santo, pai de duas filhas, trazia a bagagem pesada de quem empreende e constrói a vida com o suor do próprio rosto.

Veio buscar-me na carrinha da empresa. Fomos comer um prego tradicional, o jantar fluiu, conversa fácil, a conta paga por ele. Tudo dentro da norma, até o momento em que os lábios se encontraram no fim da refeição. Ali, o rumo da noite mudou. Ele quis um lugar “mais à vontade”. Na linguagem universal dos encontros, a tradução direta para um motel.

A minha intuição sussurrou um “não”. Eu não queria sexo no primeiro encontro. Não estava naquela sintonia, não sentia aquela faísca no peito. Mas, por razões que a minha própria mente ainda tenta decifrar, silenciei a minha vontade e disse sim.

Entramos. Das quatro horas pagas naquele quarto impessoal, não usamos mais de trinta minutos. Consumou-se o ato numa pressa desmedida para que ele atingisse o ápice, enquanto a minha empolgação era rigorosamente zero. No meio do percurso, soltou um comentário categórico: detestava cigarro, não suportava o cheiro. Olhei para ele e vi a primeira luz vermelha a piscar. No caso, porque eu fumo, e o julgamento velado já estava ali, instalado no ar.

Não me empolguei. Não amei. E, mais uma vez — para surpresa de absolutamente ninguém —, não cheguei lá. Uma realidade que, para mim, já se tornou um dado estatístico doloroso, algo que nem chego a esperar.

Saí dali com um sabor amargo na boca. Foi tudo tão automático, tão apressado e desprovido de afeto que a sensação de ser usada voltou a colar-se à minha pele. Um padrão repetitivo e desgastante que parece perseguir-me nos últimos encontros.

Para culminar, ele era brasileiro. Uma ironia à parte, que foge totalmente ao meu suposto Passaporte do Amor, que pareço passar a vida a tentar carimbar sem grande sucesso.

Naquela noite, a regressar a casa, olhei para o espelho do elevador e entendi. Talvez seja mesmo a hora de fechar a porteira. Desligar as rotas de navegação de encontros vazios e concentrar cada gota da minha energia no que realmente importa: eu mesma, a minha paz, a minha nova casa e tudo aquilo que ainda tenho para conquistar.