O Mundo Cabe em Lisboa

domingo, 9 de agosto de 2026

Eu sempre sonhei em conhecer o mundo.

Veja bem: ainda não conheço o mundo. Há continentes onde nunca pisei, cidades que continuam existindo apenas nas fotografias que guardo e tantos carimbos que ainda não chegaram ao meu passaporte de verdade.

Mas, de alguma maneira, sinto que finalmente estou naquele "mundo" com que sonhei durante tantos anos.

Porque moro em Portugal.

E Lisboa, descobri, tem um jeito curioso de trazer o planeta inteiro até nós.

Colecionar as bandeiras do Passaporte do Amor talvez seja também uma maneira de aproximar esse globo de mim sem precisar sair da cidade. Seja pelas burocracias que ainda me prendem ao território português, seja pelo orçamento de quem ainda não experimentou o tão prometido poder de compra europeu, por enquanto as minhas viagens acontecem através das pessoas.

Um francês aqui. Um canadense acolá. Um neerlandês que ficou no "e se". Um britânico, um português, um americano.

Alguns viraram beijos.

Outros, crônicas.

Uns poucos ficaram apenas nas conversas.

E talvez todos tenham me ensinado alguma coisa sobre esse mundo que eu queria tanto conhecer.

Mas há algo ainda mais fascinante acontecendo fora do Passaporte do Amor.

Às sete da manhã, dentro do metro, ouço português, francês, inglês, espanhol e línguas que nem sequer consigo identificar. Observo rostos diferentes, sotaques diferentes, histórias que atravessaram oceanos e fronteiras antes de se sentarem ao meu lado numa carruagem qualquer em direção ao trabalho.

E, de repente, percebo:

eu faço parte disso.

Durante tanto tempo, o mundo era um lugar que eu observava de longe. Estava nos filmes, nos livros, nas revistas, nas fotografias e nos planos que começavam sempre com "um dia".

Agora, acordo dentro dele.

Ainda sou imigrante. Ainda conto euros. Ainda enfrento burocracias. Ainda existem viagens que não posso fazer e lugares que permanecem apenas na lista dos sonhos.

Mas já não estou à espera de começar a viver aquela vida.

Ela começou.

Talvez seja isso que mais me emocione.

Tenho a sensação de que cheguei apenas à primeira página de um livro enorme e ainda há muito — muito mesmo — a ser desbravado.

Novas cidades.

Novas línguas.

Novos sabores.

Novas pessoas.

Novas versões de mim.

Aqui, sou uma mera aprendiz.

E talvez essa seja justamente a parte mais bonita de finalmente encontrar o mundo:

descobrir que, depois de passar tantos anos sonhando em conhecê-lo, agora tenho uma vida inteira para aprender a habitá-lo.

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