Houve um tempo em que acreditei que o meu caminho pela Europa precisava de carimbos alheios. Colecionei encontros apressados, conversas rasas e expus o meu corpo e a minha alma a quem não tinha estrutura sequer para me enxergar. Chamava a isso de Passaporte do Amor, como se a minha travessia por este continente dependesse de decifrar o olhar de homens que nem sem os óculos de sol sabiam o que queriam da vida.
A verdade é que o amor que procurei lá fora sempre me devolveu ao mesmo lugar: a sensação amarga de ser usada, o silêncio mecânico de quartos impessoais e o cansaço de esperar por quem simplesmente não vem.
Hoje, deitada na minha cama no meu quarto novo em Oeiras — com o cheiro a casa limpa, o vento leve que sopra da Praça dos Poetas e o mar logo ali ao virar da esquina —, percebi que a porteira finalmente se fechou. Não por amargura ou rancor, mas por um ato urgente e solene de autopreservação.
Decidi aposentar o Passaporte do Amor. Ele caducou.
No seu lugar, inauguro hoje o Passaporte da Jana — o meu bilhete definitivo para a liberdade.
Este novo documento não exige a aprovação de ninguém. As regras de embarque são simples, mas inegociáveis: a minha energia vital agora tem endereço certo. Vai para as páginas do Janaland, para o orgulho de ver milhares de leitores a encontrarem-se nas minhas palavras, para o suor do meu trabalho honesto e para a conquista diária da minha independência.
O meu próximo destino é a minha própria história. É guardar cada cêntimo para colocar na mesa o meu portátil novo, é ver os meus livros publicados e ver as páginas do quarto livro nascerem sem pressa. É estudar inglês para cobrir as semanas de moda onde sempre sonhei estar. É caminhar à beira-mar, celebrar mais uma volta ao Sol com um sorriso inteiro e saber que a casa mais bonita e acolhedora que habito sou eu mesma.
Descobri que a liberdade tem um sabor infinitamente mais doce do que qualquer validação rasa. Se o mundo achou que eu estava no meu inferno astral, desenganou-se: estou na minha maior e mais bonita revolução.
A partir de hoje, só viaja comigo quem souber honrar a mulher em que me tornei. Caso contrário, que fiquem todos no cais. O meu voo já começou.

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