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A Falsa Companhia e a Ilha de Si Mesma

quarta-feira, 9 de setembro de 2026

Emigrar é, antes de tudo, um exercício diário de desamparo. Quando desembarcamos num país diferente com a mala cheia de sonhos e o peito aberto para o mundo, trazemos conosco uma fome silenciosa e urgente: a necessidade desperadoramente humana de pertencimento. Queremos uma voz familiar, um riso partilhado no fim do dia, um abraço que nos diga que não estamos sozinhos no meio da multidão.

Nessa busca por calor humano, a solidão torna-se uma lente distorcida. Ela nos faz confundir presença com afeto e barulho com companhia. Por medo de encarar o silêncio do quarto ou o peso dos nossos próprios sentimentos — com todas as suas oscilações, picos de euforia e vales de tristeza —, abrimos as portas da nossa vida para quem passa sem intenção de ficar. Apegar-mo-nos ao raso, ao caos alheio, à aprovação de estranhos que mal compreendem a densidade da nossa história. Oferecemos a nossa transparência e a nossa verdade a quem busca apenas a compostura da superfície, e aceitamos a ausência daqueles em quem depositamos a nossa gratidão.

Passamos o passaporte do amor na expetativa de que o outro nos dê a cidadania do seu afeto. E, quando recebemos a rejeição ou o silêncio frio do desinteresse, a dor não vem do outro; vem do reencontro forçado com o vazio que tentávamos evitar.

A ressaca da alma é sempre mais dolorosa do que a do corpo. Ela nos mostra o preço alto de nos afastarmos dos nossos próprios altares. A cada copo erguido para anestesiar a exaustão, a cada conversa jogada fora para preencher o tempo, deixamos um pedaço do nosso brilho pelo caminho. Adiamos os nossos livros, os nossos projetos, o nosso sustento e os nossos passos em direção à independência.

Mas a solidão do imigrante também guarda uma força soberana e sagrada: a capacidade do retorno.

Decidir fechar as portas para o desgaste não é um ato de derrota, é um manifesto de sobrevivência. É compreender que a única estrutura emocional capaz de sustentar os nossos sonhos é a que construímos por dentro. Dizer chega aos encontros vazios, às companhias ruidosas que nos roubam a paz e aos silêncios que nos diminuem é o primeiro passo para limpar o terreno.

Não precisamos da validação de quem não sabe o peso da nossa caminhada. O nosso foco volta para o chão sob os nossos pés: para a ferramenta de trabalho que precisamos conquistar, para as páginas dos livros que ainda vamos publicar, para a escrita que liberta e para a dignidade de quem constrói o próprio destino com as próprias mãos.

Longe da barulheira do mundo e das falsas companhias, a luz que parecia apagada volta a acender-se. A maior viagem do imigrante não é a que cruza o oceano; é a jornada de volta para si mesmo.

Do plástico às pedras preciosas: as Jornadas Europeias do Património chegam ao Tesouro Real

sábado, 5 de setembro de 2026

Garrafas de plástico transformadas em pregadeiras, uma visita sobre a sustentabilidade na exploração de pedras preciosas e um percurso pela história e gestão do próprio museu. Estas são as propostas do Museu Tesouro Real para as Jornadas Europeias do Património, que se realizam em setembro sob o mote “Reviver, resistir e reinventar”.

O programa começa a 19 de setembro com o workshop “Nobre Renascer: Do Plástico à Joia”. Conduzida por Cristina Nuño, vencedora do concurso de joalharia Ecos Reais, a oficina desafia os participantes a transformar garrafas de plástico PET em pregadeiras inspiradas no universo marinho. Entre medusas e corais, um material do quotidiano ganha uma nova vida e aproxima a joalharia contemporânea das preocupações ambientais.

No mesmo fim de semana, a visita orientada “Brilho Sustentável” propõe um percurso diferente pelas joias, pelo ouro e pela prata do Tesouro Real. Nos dias 19 e 20 de setembro, o público descobre algumas das cerca de 22 mil pedras preciosas da coleção e acompanha a história das suas origens, características e valor. A visita liga ainda estes minerais ao presente e mostra como muitos são hoje essenciais à tecnologia e à transição ecológica e lançando uma reflexão sobre o uso responsável dos recursos naturais.

As Jornadas prolongam-se a 26 e 27 de setembro com a visita temática “O Museu Tesouro Real como caso singular na Gestão do Património Português”. Mais do que apresentar joias e insígnias, o percurso revela as decisões políticas, jurídicas e patrimoniais que marcaram o destino da coleção desde a Implantação da República. Da dispersão e recuperação de diferentes núcleos à criação do museu no Palácio Nacional da Ajuda, a visita mostra como a colaboração entre entidades públicas e privadas tornou acessível um património de excecional importância nacional.

Antes das Jornadas, setembro recupera outra figura decisiva da monarquia portuguesa. Nos dias 5 e 6, a visita especial “D. Carlota Joaquina e as Redes de Poder na Monarquia” acompanha a trajetória da rainha entre alianças ibéricas, intrigas palacianas e oposição ao constitucionalismo. Integrada nas comemorações dos 200 anos das exéquias de D. João VI, a proposta percorre os bastidores de um período marcado por ambição, lealdade e rutura política.

Ao longo do mês, o museu mantém as visitas orientadas regulares à coleção, em português e inglês. No dia 12 de setembro, segundo sábado do mês, a visita em português é gratuita mediante aquisição do bilhete do museu. Sob a gestão da Associação Turismo de Lisboa, o Museu Tesouro Real está aberto todos os dias, das 10h00 às 19h00 (última entrada às 18h00).

Saiba mais em: Museu Tesouro Real | Agenda

Moda: Bem-vindas ao Janaland Street View Portugal!

terça-feira, 16 de junho de 2026

Mais do que tendências de revistas, a verdadeira moda ganha vida nas ruas, no movimento das cidades e na escolha diária de pessoas reais. Esta rubrica nasce do meu desejo de documentar a riqueza visual e o comportamento estético que moldam o espaço urbano em Portugal.

Já observada pessoas com looks que considero icônicos ou estilosos, mas nunca tive a coragem de abordar e pedir uma foto, até que essa mulher de macacão de onça e seu laço enorme atravessou na minha frente e foi seguindo no meu caminho até pararmos na mesma estação de metro. Não resisti e fiz um registro o que me deu o estalo: por que não?

Vou me unir de coragem sempre que encontrar alguém com um look, que no meu olhar precisa aparecer aqui. 

Semanalmente, pretendo trazer para o blog uma curadoria fotográfica e analítica de, pelo menos, três looks que capturaram a minha atenção e despertaram o meu olhar jornalístico. Do clássico ao irreverente, das plataformas de metro de Lisboa às ruelas históricas do país, o Street View é o nosso espelho da moda real, viva e em constante movimento. Preparem o café e venham caminhar comigo!