A Engenharia dos Sete Euros (ou Asas de Frango no Cais do Sodré)

terça-feira, 28 de julho de 2026

Às nove da manhã, o meu mundo valia exatamente sete euros. Sete moedas. O tipo de número que não dá nem para um pavor decente, quanto mais para atravessar sete dias de vida em Lisboa. Olhei para a conta e senti aquele chão a abrir-se sob os pés, aquele aperto no peito de quem se sente sozinha, ilhada, sem ter a quem pedir socorro. A casa onde durmo parecia subitamente mais fria, o ar mais pesado, a cozinha: um território hostil onde eu nem sequer tinha vontade de acender o fogão.

A mente entra em pânico, mas o cérebro de quem já cruzou um oceano tem os seus próprios truques. Chamam-lhe neuroplasticidade. Eu chamo-lhe instinto de sobrevivência pura.

Em vez de chorar sobre os sete euros, sentei-me e virei engenheira de cozinha de emergência no site do Pingo Doce. Dois pacotes de fusilli com cogumelo porcini a 1,39€. Uma lata de atum esquecida no armário. A jardineira de legumes congelados salteada na manteiga para dar corpo, dignidade e cor. Pronto: quatro almoços garantidos por menos de três euros. A matemática do desespero transformou-se numa vitória de sessenta e nove cêntimos por refeição. Ninguém no trabalho saberia que aquele prato bonito era, na verdade, um milagre de aritmética.

E então, o dia deu a sua volta de montanha-russa.

O universo tem uma forma estranha de responder a quem não se entrega. Cem reais que entram na conta. Uma limpeza de vinte e sete euros fechada para sábado, recorrente, na raça. Três empregos. O corpo cansa só de pensar na maratona que aí vem, mas a alma ganha um oxigénio que dinheiro nenhum compra: a certeza de que a tempestade é temporária e de que o meu futuro está a ser construído, moeda a moeda.

Agora, estou aqui no Cais do Sodré. O vento do Tejo bate na cara e apaga a poeira de um dia que tentou me derrubar e falhou miseravelmente. Pego um Somersby de maçã no Pingo Doce junto com as asinhas de frango apimentadas. Não é gasto, é celebração. É o prémio de quem começou o dia no fundo do poço e termina a olhar para o rio, de cabeça erguida, com o estômago cheio de dignidade e o coração cheio de futuro.

Até aos sete euros eu sobrevivi. Daqui para a frente, eu conquisto.

Sobre Pontes, Pinheiros e o Gollum

domingo, 26 de julho de 2026

Nem um fio de ideia... E ainda tenho 30 minutos de viagem de autocarro até à minha consulta psiquiátrica.

Passo pela Ponte 25 de Abril e penso: caralho, eu moro mesmo em Lisboa! Nunca vou deixar de ficar estupefata ao cruzar este rio.

Vejo pinheiros pelo caminho, vários, espetados nos canteiros da estrada, e lembro-me da minha casa em Rosário Oeste. Da minha mãe a cultivar com amor um pinheirinho que nunca cresceu muito — chegou, no máximo, à altura dos meus nove anos, quando mudei para Cuiabá. Deu-me uma vontade súbita de passear pela memory lane e abrir finalmente aquela caixa de fotos antigas que trouxe comigo na mala. Pensei até numa ideia de foto que pode dar um bom Reels.

Toca Florence no fone. Lembro-me de não ter conseguido o credenciamento de imprensa para o show, mas não vou desistir. Esta carteira internacional de jornalista ainda me vai levar a algum lugar. É como o Gollum no Senhor dos Anéis: Frodo e Sam queriam matá-lo logo no início do primeiro livro, mas o Gandalf avisou que ele ainda tinha um papel a desempenhar — e teve.

 A minha carteira da IFJ também tem. E eu também.