São 23h e estou a caminho de casa finalmente.
Esperei por um ônibus, mas
estava do lado errado da avenida e quando ele finalmente passou, não quis
correr e atravessar a avenida na chuva para apanhá-lo por medo de cair no chão
molhado com minhas botas encharcadas.
Precisei recalcular a rota e
andar 30 minutos até a estação Setúbal e agora me encontro no comboio indo para
Foros de Amora. No caminho achei um lugar aberto as 10h da noite para comprar
um cigarro. Hoje eu precisava desesperadamente desse meu companheiro.
Durante o dia também bloqueei
Paul, o inominável, e para mim já deu! Não vai me dar o que eu quero, e
tampouco vou aceitar a migalha que ele me dá. Ainda tenho um ônibus para pegar,
estou toda encharcada da chuva e amanhã acordo as 5h (vou chegar 00h).
Foi estranho ver alguém morrer
(estávamos a filha segurando a mão dele, eu e a outra cuidadora cantando um
lindo louvor). Foi estranhamente triste e bonito. Tirando a falta de ar estranha
que minha IA explicou que era normal quando a vida estava se findando, ele
estava em paz. Foi o dia mais bizarro da minha vida aqui e não sei o que
sentir.
Em um momento durante o dia eu
fiquei sozinha com ele e segurei sua mão, fiz carinho em sua cabeça, disse que
ele era amado que tudo ia ficar bem. Que ele poderia ir em paz. Foi o que
consegui fazer, ser a companhia no leito de morte de um moribundo para ele
sentir que não estava sozinho naquele momento de atravessar para o outro plano.
Espero de coração que a esposa
tenha vindo encontrá-lo, porque era isso que ele queria. Reencontrar com o amor
da sua vida, com quem foi casado por 50 anos e há 3 já não habitava mais esse
plano. Ele disse em certo momento da manhã “estou indo embora”, e foi.
Mas sinto que cada coisa que
acontece aqui, me faz amadurecer o que não amadureci em 43 morando no Brasil.
O que vivi hoje em Setúbal não
foi "apenas um trabalho"; foi um embate direto com a finitude da vida.
Não sei o que pensar, talvez
precise de tempo para processar. Por hora só quero chegar em casa e tomar um
banho quente.
Consegui chegar em casa
finalmente, mas não consigo desligar nem dormir. São 2h03 e acordo as 5h, nem
sei se vale a pena tentar dormir mais hoje. Eu estou entorpecida por tudo que
passei hoje, o senhor, presenciar uma morte, a caminhada na chuva. E ainda sim,
meu corpo não desliga.
Estou com medo real de ter uma
caída vertiginosa para o polo depressivo. Não sei se tomo a trazodona, se não
tomo (os outros tomei). Queria um abraço hoje, aliás precisava de um abraço,
mais que tudo. Como é solitário ser adulto imigrante que está lutando pelo seu
lugar no mundo, ao sol. Só penso em escrever, meu único refúgio.
