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Sobre Pontes, Pinheiros e o Gollum

domingo, 26 de julho de 2026

Nem um fio de ideia... E ainda tenho 30 minutos de viagem de autocarro até à minha consulta psiquiátrica.

Passo pela Ponte 25 de Abril e penso: caralho, eu moro mesmo em Lisboa! Nunca vou deixar de ficar estupefata ao cruzar este rio.

Vejo pinheiros pelo caminho, vários, espetados nos canteiros da estrada, e lembro-me da minha casa em Rosário Oeste. Da minha mãe a cultivar com amor um pinheirinho que nunca cresceu muito — chegou, no máximo, à altura dos meus nove anos, quando mudei para Cuiabá. Deu-me uma vontade súbita de passear pela memory lane e abrir finalmente aquela caixa de fotos antigas que trouxe comigo na mala. Pensei até numa ideia de foto que pode dar um bom Reels.

Toca Florence no fone. Lembro-me de não ter conseguido o credenciamento de imprensa para o show, mas não vou desistir. Esta carteira internacional de jornalista ainda me vai levar a algum lugar. É como o Gollum no Senhor dos Anéis: Frodo e Sam queriam matá-lo logo no início do primeiro livro, mas o Gandalf avisou que ele ainda tinha um papel a desempenhar — e teve.

 A minha carteira da IFJ também tem. E eu também.



Meu próprio Comer, Rezar e Amar nunca coube num enxoval

sexta-feira, 24 de julho de 2026


Acho que nunca tive vontade de ter filhos...

Vendo uma foto de mesversário do filho da minha prima logo depois de ter ficado feliz de ter encontrado uma salada de bacon com nozes por € 2.30, meio que me dei conta que embora tenha muitos perrengues - as vezes a contar cêntimos - eu sou muito feliz com minha vida aqui na Europa.

Veja bem, Comer, Rezar e Amar se tornou o meu filme favorito. Via e revia inumeras vezes porque sentia que era aquilo que eu queria para minha vida, ainda mais sendo escritora!

A minha mala embaixo da cama, aquela dos sonhos que elas mencionam no filme, não tinha nada relacionado a bebês, ou coisas de noiva, família. Mas sim cartões postais, mapas e jornais de lugares que sabia que iria conhecer um dia.

Sempre sonhei em viajar e conhecer o mundo!

Vejo mamães com seus bebes e crianças no Instagram e, não me tocam como um vídeo vendo a Torre Eiffel primeira vez.

Veja bem, acho maravilhoso quem se encontra na maternidade, mas nunca me senti como alguém que gestaria, ou teria uma família.

E isso em absoluto não é triste e nem vazio, é apenas uma escolha diferente do caminho que todos consideram "natural" para uma mulher.

Uma amiga me disse algo que mexeu comigo. Que ela se lembra que desde mais jovem eu era conectada com o mundo lá fora mesmo estando em Cuiabá-MT.

Seja por filmes, pelos produtos que eu importava em uma época que os e-comerces ainda engatinhavam. Comprava dos Estados Unidos, Inglaterra, França, Coréia, China e Japão, isso tudo há 20 anos atrás.

E essa mesma amiga me disse que comigo, ela aprendeu a sonhar com um mundo além do nosso bairro, mesmo sem sair dele. Coisa que ela jamais pensou ser possível.

Me sinto orgulhosa da minha história e de onde cheguei e ainda irei chegar com essa cabecinha avoada e sonhadora.

Parte 2: Coisas que só uma mulher entende

terça-feira, 21 de julho de 2026

Há um idioma que não se ensina nos dicionários, que não exige passaporte e que se fala em silêncio absoluto, algures entre o cansaço do fim do dia e o espelho da casa de banho. É o dialeto das mulheres. Uma espécie de código de sobrevivência e de beleza que corre nas nossas veias e que nenhuma inteligência artificial ou lógica puramente masculina conseguirá alguma vez traduzir por completo.

Só uma mulher entende o peso exato e o alívio profundo de soltar o soutien depois de dez horas de rua. Aquela sensação de que o corpo, finalmente, voltou a pertencer-nos, e que o mundo lá fora já não nos pode cobrar mais nenhum centímetro de postura.

Só uma mulher entende o que é passar uma semana inteira a pão e iogurte de cêntimos do supermercado, a engolir choros e a contar moedas, e, de repente, gastar o que quase não tem num batom vermelho ou num perfume caro. E não é futilidade — os homens que não se atrevam a chamar-lhe isso. É dignidade. É olhar para o espelho no meio da tempestade da imigração, da solidão ou da ansiedade, passar aquela cor nos lábios e dizer ao mundo: "Podes bater com a força que quiseres, porque eu ainda estou aqui e continuo linda." É usar o aroma como uma armadura invisible.

Só nós sabemos ler a arquitetura de um silêncio. Quando um homem não responde a uma mensagem, ele está apenas a ser homem — distraído, cansado, focado noutra coisa qualquer. Mas quando nós olhamos para aquele ecrã mudo, o nosso cérebro monta uma ópera inteira em três atos. Culpamo-nos, recalculamos a rota, analisamos cada palavra dita na véspera, até percebermos — depois de muita solitude e de um prato de massa bem quente — que o nosso valor nunca dependeu do tempo de resposta de ninguém. O sol não corre atrás da sombra. Nós sabemos disso, mesmo quando o coração teima em esquecer.


Só uma mulher entende a beleza agridoce de transformar o vazio em solitude. De trocar o barulho de um copo partilhado num cais qualquer pelo aconchego de uma panela de água a ferver na cozinha de casa, a preparar aquela comfy food que abraça o estômago e acalma a alma. Há uma santidade quase mística no ato de cozinhar para si mesma quando se está sozinha num país estrangeiro. É uma missa particular, um pacto de amor-próprio.

Entendemo-nos no desapego. No momento em que deitamos fora as pulseiras, as memórias ou as amizades que já não nos servem, pedindo perdão aos altares da nossa história, mas sabendo que a nossa pele precisa de estar limpa para os novos recomeços. Entendemo-nos na luta contra a balança, na contagem da glicose, na gestão das hormonas que nos fazem rir e chorar no espaço de cinco minutos, e na capacidade quase sobre-humana de acordar no dia seguinte, pôr os pés no chão com dores nas pernas, e ir limpar três Airbnbs com o sorriso de quem vai conquistar a Europa.

Porque, no fundo, ser mulher é isto. É carregar uma mala cheia de sonhos — alguns que se realizam em Paris, outros que se escrevem em livros, e outros que se vivem na próxima paragem de autocarro —, saber exatamente o tamanho da nossa fragilidade e, ainda assim, escolher ser a nossa própria fortaleza.

Quem olhar de fora verá apenas uma mulher a caminhar na rua. Mas outra mulher, ao cruzar-se com ela, lerá nos olhos o livro inteiro. E sorrirá em silêncio. Porque só nós sabemos o quanto custa, e o quanto vale, ser quem somos.

O dia em que perdi o medo do escuro (e mudei de país sozinha)

domingo, 19 de julho de 2026

Queridas, hoje eu queria compartilhar com vocês — e com a minha psicóloga — uma das maiores vitórias da minha vida, daquelas que a gente só consegue enxergar quando para de verdade para olhar para si.

Agora há pouco, me peguei aqui no meu quarto, no escuro, completamente sozinha. E me veio um filme na cabeça. Pensar que até os meus 25, 30 anos, eu simplesmente não conseguia dormir sozinha em um quarto, muito menos com a luz apagada. Eu não suportava a solidão. Quando o meu ex-marido viajava, eu passava a noite inteira em claro, consumida pelo medo e pela ansiedade. Naquela época, eu ainda não tinha o meu diagnóstico de transtorno afetivo bipolar e não fazia o tratamento adequado.

Olhar para onde estou hoje e ver o quanto a minha vida mudou é algo que me emociona profundamente. E eu tenho total clareza de que essa transformação só foi possível porque eu recebi o diagnóstico correto, comecei a me tratar e a me acolher.

Eu passei a vida inteira acreditando que seria dependente de alguém para sempre. Nunca, nem nos meus sonhos mais distantes, imaginei que seria capaz de morar sozinha, cuidar de mim, dar conta de tudo, pagar meu aluguel, comprar minha comida, me sustentar e viver por conta própria — as coisas simples de um adulto comum que antes pareciam montanhas impossíveis de escalar.

Até a arquitetura do meu espaço físico mudou com a minha mente. Antigamente, a minha cama tinha que ficar obrigatoriamente colada na parede, como uma espécie de escudo para que eu conseguisse adormecer. Hoje, a minha cama fica no meio do quarto, livre, sem paredes me segurando de lado nenhum.

Se antes eu não conseguia passar uma noite sozinha no Brasil, hoje eu moro em um país estrangeiro, em um quarto que é só meu, e amo dormir no escuro profundo. Isso para mim é extraordinário. Sem o diagnóstico, sem a medicação e sem o processo terapêutico que me trouxe até aqui, nada disso seria possível.

Compartilho isso para lembrar a mim mesma — e a cada uma de vocês — do tamanho da nossa força quando decidimos nos tratar com cuidado, respeito e verdade. Hoje eu sou a minha própria fortaleza. E que paz que é descobrir isso.

Com muito carinho e gratidão, Jana.

*depoimento enviado o grupo de terapia Mulheres que Olham para Si

Coisas que só uma mulher entende

quinta-feira, 16 de julho de 2026

Há um idioma que não se ensina nos dicionários, que não exige passaporte e que se fala em silêncio absoluto, algures entre o cansaço do fim do dia e o espelho da casa de banho. É o dialeto das mulheres. Uma espécie de código de sobrevivência e de beleza que corre nas nossas veias e que nenhuma inteligência artificial ou lógica puramente masculina conseguirá alguma vez traduzir por completo.

Só uma mulher entende o peso exato e o alívio profundo de soltar o soutien depois de dez horas de rua. Aquela sensação de que o corpo, finalmente, voltou a pertencer-nos, e que o mundo lá fora já não nos pode cobrar mais nenhum centímetro de postura.

Só uma mulher entende o que é passar uma semana inteira a pão e iogurte de cêntimos do supermercado, a engolir choros e a contar moedas, e, de repente, gastar o que quase não tem num batom vermelho ou num perfume caro. E não é futilidade — os homens que não se atrevam a chamar-lhe isso. É dignidade. É olhar para o espelho no meio da tempestade da imigração, da solidão ou da ansiedade, passar aquela cor nos lábios e dizer ao mundo: "Podes bater com a força que quiseres, porque eu ainda estou aqui e continuo linda." É usar o aroma como uma armadura invisible.

Só nós sabemos ler a arquitetura de um silêncio. Quando um homem não responde a uma mensagem, ele está apenas a ser homem — distraído, cansado, focado noutra coisa qualquer. Mas quando nós olhamos para aquele ecrã mudo, o nosso cérebro monta uma ópera inteira em três atos. Culpamo-nos, recalculamos a rota, analisamos cada palavra dita na véspera, até percebermos — depois de muita solitude e de um prato de massa bem quente — que o nosso valor nunca dependeu do tempo de resposta de ninguém. O sol não corre atrás da sombra. Nós sabemos disso, mesmo quando o coração teima em esquecer.

Só uma mulher entende a beleza agridoce de transformar o vazio em solitude. De trocar o barulho de um copo partilhado num cais qualquer pelo aconchego de uma panela de água a ferver na cozinha de casa, a preparar aquela comfy food que abraça o estômago e acalma a alma. Há uma santidade quase mística no ato de cozinhar para si mesma quando se está sozinha num país estrangeiro. É uma missa particular, um pacto de amor-próprio.

Entendemo-nos no desapego. No momento em que deitamos fora as pulseiras, as memórias ou as amizades que já não nos servem, pedindo perdão aos altares da nossa história, mas sabendo que a nossa pele precisa de estar limpa para os novos recomeços. Entendemo-nos na luta contra a balança, na contagem da glicose, na gestão das hormonas que nos fazem rir e chorar no espaço de cinco minutos, e na capacidade quase sobre-humana de acordar no dia seguinte, pôr os pés no chão com dores nas pernas, e ir limpar três Airbnbs com o sorriso de quem vai conquistar a Europa.

Porque, no fundo, ser mulher é isto. É carregar uma mala cheia de sonhos — alguns que se realizam em Paris, outros que se escrevem em livros, e outros que se vivem na próxima paragem de autocarro —, saber exatamente o tamanho da nossa fragilidade e, ainda assim, escolher ser a nossa própria fortaleza.

Quem olhar de fora verá apenas uma mulher a caminhar na rua. Mas outra mulher, ao cruzar-se com ela, lerá nos olhos o livro inteiro. E sorrirá em silêncio. Porque só nós sabemos o quanto custa, e o quanto vale, ser quem somos.

Dois Dígitos e Desejada em Várias Línguas

domingo, 12 de julho de 2026

 Apenas quem já pesou 100 kg sabe o sentimento de ver 72 kg na balança


Hoje me pesei de manhã, em jejum, e a balança gentilmente me falou: "72,3".

"Uau", pensei!

Estou tão mais perto da minha meta para ficar fora da linha da obesidade, que é de 68 kg de acordo com o meu IMC (Índice de Massa Corporal) — o cálculo internacional usado para avaliar se estamos no peso ideal em relação à nossa altura. E o melhor: estou tão mais longe dos 100 kg. Sim, eu cheguei aos três dígitos quando morava em Cuiabá.

No primeiro impacto, me senti feliz com uma coisa teoricamente tola como o peso na balança. Não que não seja importante e válido, mas sei que existem tantas outras questões complexas acontecendo ao mesmo tempo, problemas reais da vida de quem imigra.

Mas, por outro lado, me sinto gostosa, desejada... uma mulher por inteiro. Não sei se me entendem.

Lembro perfeitamente das sessões de terapia em que dizia para a minha psicóloga que me achava "incomível". Por ser tão obesa, eu simplesmente não me sentia desejada. Por anos, foi exatamente assim que me senti aqui dentro: incomível.

E hoje, ver portugueses, alemães, americanos e italianos a me desejar me faz uma puta massagem no ego. Acho que era exatamente disso que eu precisava para resgatar a minha autoestima. São desejos internacionais expressos por vários olhares diferentes; a sensação única de me sentir desejada em várias línguas.

Não posso afirmar que todos os librianos têm vários contatinhos, mas sei que a minha agenda hoje está cheia de bandeirinhas diferentes.

No final das contas, imigrar é perder o chão para conseguir reconstruir o teto. E se a vida de imigrante está cheia de problemas reais e burocracias duras, hoje permito-me celebrar esta pequena-grande vitória. Entre o IMC e os olhares estrangeiros, descobri que cruzar o oceano também serviu para me lembrar de uma verdade que Cuiabá tinha esquecido: eu sou uma mulher desejada e, finalmente, dona da minha própria pele.

Pequenos Alívios Diários: 10 Coisas Secretas que Só as Mulheres Entendem

sexta-feira, 10 de julho de 2026


Segunda-feira de manhã. Caminhando em direção ao metrô para mais um dia de trabalho, fui surpreendida por um detalhe simples: a sensação gostosa do tecido da calça social tocando as minhas pernas, recém-depiladas na véspera.

Num piscar de olhos, fui teletransportada para uma memória afetiva de quase 25 anos atrás. Lembrei-me perfeitamente do toque de uma saia de musseline de seda que eu tinha na época, roçando na pele lisa. É incrível como o corpo guarda registos tão bonitos. Bastou o toque de um tecido macio para me devolver aquela leveza longínqua.

Enquanto acelerava o passo, pensei: qualquer mulher entenderia perfeitamente este sentimento.

Essa cumplicidade silenciosa que partilhamos inspirou-me a listar aqui aquelas pequenas grandes sensações que só nós, mulheres, entendemos de verdade:

  1. A carícia da pele: A sensação indescritível da perna recém-depilada a deslizar por um lençol limpo ou um tecido macio.

  2. A libertação do fim do dia: Tirar o sutiã e soltar um suspiro profundo depois de horas de trabalho.

  3. O alívio mensal: Para quem não quer ter filhos, ver a menstruação descer sem atrasos.

  4. O milagre do traço único: O teste de gravidez dar negativo (mais uma vez, um brinde à liberdade de escolha!).

  5. A descida do salto: Tirar o salto alto no meio da festa e sentir a sola tocar o chão frio. Paradisiaco.

  6. O poder do esmalte: Pintar as unhas de vermelho e sentir-se instantaneamente pronta para dominar o mundo.

  7. O ritual do banho premium: Aquele banho sem hora para acabar, com direito a esfoliante, máscara de cabelo e todas as texturas e aromas a que temos direito.

  8. O dia de rainha: Sair do salão com o serviço completo feito — unhas, depilação e cabelo impecáveis.

  9. A leveza do cabelo lavado: O balanço e o perfume que parecem renovar as ideias.

  10. O charme de ser cuidada: Quando o homem faz questão de pagar a conta. Pode parecer anti-feminista para algumas, mas a sensação de ser mimada e protegida é, sim, deliciosa.


Diário de uma Imigrante: Sandálias Novas, Telemóvel Perdido e 4% de Bateria

domingo, 5 de julho de 2026

 


Dizem que o universo testa a nossa resistência nos saldos de verão. Ontem, o meu palco foi o shopping de Oeiras. De um lado, a Mari: negra, risonha, expansiva, a entrar em todas as lojas e a comprar como se não houvesse amanhã. Do outro, eu: a olhar para as etiquetas com a dignidade de quem sabe que a conta bancária está a respirar por aparelhos, tentando ser a voz da razão que, claramente, não tenho dentro de mim.

A resistência durou até à secção de calçado. Os vinte euros que a Mari me devia — e que no meu plano financeiro mental já tinham três destinos diferentes — transformaram-se, por magia e fraqueza da carne, num protetor solar e numa sandália de quinze euros que eu precisava ter. Resultado da matemática da tentação: gastei o que não tinha e ainda fiquei a dever dois euros à minha devedora. Coisas de Jana.

Para afogar a culpa, fomos aos copos. A Mari, na sua generosidade habitual, comandou a mesa. Foram imperiais, petiscos e gargalhadas altas. Tão altas que incomodaram a mesa ao lado. Uma senhora portuguesa olhava-nos de soslaio, com aquele ar de reprovação disfarçado que eu conheço bem, focado especialmente no brilho barulhento da Mari. Olhei para ela e o meu sangue de Cuiabá ferveu: estava prontinha para armar um barraco ali mesmo se ela ousasse abrir a boca. Só mais tarde, entre risos, descobri que a Mari partilhava exatamente do mesmo espírito belicoso. Se a senhora soubesse o perigo que correu, teria mudado de esplanada.

Antes do caos final, ainda houve tempo para a poesia do acaso: fomos tirar uma foto para registar a noite e ganhámos um photobomb hilário de um gringo que decidiu fazer parte da nossa moldura. Mal sabíamos que aquela seria a última imagem de sanidade da noite. A mulher que estava ao lado dele, que deduzi ser a esposa/namorada olhou feio para ele e para nós, mas que culpa temos no oferecido querer sair em nossa foto?

Corta a cena para o encerramento do shopping. Segurança a olhar de lado, as portas a fecharem-se e nós ali, praticamente expulsas. O meu telemóvel? A agonizar com 4% de bateria. O ecrã apagou-se antes de eu conseguir chamar o transporte. O Uber da Mari estava a quatro minutos de distância. No desespero, o primeiro ensaio de regresso deu errado: três euros de taxa de cancelamento cobrados na minha conta para abrir as hostilidades do caos.

A Mari, num ato de desespero corporativo, ligou para a senhora Louise — a nossa patroa —, perguntando se eu podia ir para a casa dela (onde a Mari também mora) só para dar uma carga rápida no aparelho e pedir um carro dali. Resposta da patroa: um "não" redondo e sonolento, porque já estava tudo a ir para a cama.

Solução milagrosa? A Mari pediu um Bolt para mim no telemóvel dela. O carro chegou por milagre mesmo a tempo, logo a seguir ao Uber dela arrancar. Menos vinte euros na minha conta. Uma montanha de dinheiro para quem está a contar cêntimos, mas o preço da liberdade tem destas coisas.

Se acham que a história acaba aqui, é porque não conhecem a minha capacidade de dramatização.

Chego a casa no escuro, tateio a mochila e... o pânico instala-se. O telemóvel sumiu. Esqueci-me de referir que a minha mochila tem um rasgo interno secreto que funciona como uma espécie de Triângulo das Bermudas de objetos. Sem pensar, liguei o telemóvel institucional de onde trabalho e mandei uma mensagem desesperada para a senhora Louise pedindo para avisar a Mari que tinha deixado o meu aparelho no Bolt.

Instantes depois, decidi fazer o óbvio: virei a mochila de pernas para o ar e sacudi-a com a força de quem limpa a alma. Das profundezas do forro rasgado, o bendito telemóvel caiu no chão. Respirei fundo, sã e salva.

Até que o telemóvel institucional toca. Olhei para o ecrã, vi o nome da patroa e o meu sangue congelou. "Pronto, vai dar-me um sermão por acordá-la a esta hora". Atendi com o coração na boca. Do outro lado da linha, era a filha dela. Não era para falar de mim. Era para avisar que a Mari — sim, a expansiva Mari — tinha perdido o telemóvel dela no Uber. Desta vez, de verdade.

Pensem num rolé caótico! Olhando para trás agora, com a poeira assente, eu só consigo rir. Amei cada segundo daquela loucura, saí completamente falida, mas de alma lavada. E para fechar com chave de ouro e aliviar o coração de quem lê: o universo teve compaixão e a Mari recuperou o telemóvel dela ontem mesmo.

Um detalhe que só vi no dia seguinte: eu tinha o cabo que conectava ao carregador portátil na mochila, mas não vi na hora que estava lá. É a vida tem dessas ironias.

Que venha o próximo!


O Avesso do Controle

terça-feira, 30 de junho de 2026


Eu quero sentir um beijo que me tire do chão

Que congele a minha barriga

Que dê frio na espinha e arrepios na alma

Quero não sentir controle

Me sentir viva quando esses lábios tocam os meus

Que me tire o fôlego

Que me cause suspiros

Quero sentir algo que me atordoe

Sem rumo

Sem prumo

Sem centro de gravidade

Que apenas sentir

Que estou viva

Que o sangue ainda pulsa

Que o corpo se remexe e contorce em êxtase

Apenas sentir

Essa afinal, é a minha busca 

Um Viva aos Mamilos Livres (e à Minha Cabeça Millennial)

domingo, 28 de junho de 2026


Por que é que ainda é tão difícil para nós — ou, pelo menos, para mim, da geração Millennial — ver uma mulher sem sutiã na rua?

Em casa, tudo bem. Estamos num espaço reservado, protegidas pelas paredes, e parece natural libertarmo-nos desse instrumento de tortura. Mas na rua? O meu cérebro, moldado por anos de regras invisíveis, ainda dispara um alerta automático que lê aquela imagem como "errada", libidinosa ou indecente.

Vejam bem: a errada aqui sou eu. Afinal, aquelas são mulheres livres, que ousam quebrar convenções e inspirar as novas gerações.

O problema é o que foi martelado na minha cabeça desde a infância. Cresci a ser ensinada a esconder-me. Esconder o corpo, camuflar o peito que começava a despontar aos dez anos dentro de um sutiã cirurgicamente escolhido para não marcar. Menstruação, então? Um tabu tão grande que nunca ouvi a palavra sair da boca da minha mãe. Descobri tudo por conta própria, porque fui alfabetizada a ler revistas femininas e sempre transbordei curiosidade desde a tenra idade. Olhando para trás, acho que foi esse mesmo desejo de desvendar o silêncio que me guiou, anos mais tarde, pelo caminho natural do jornalismo.

Eu tenho a minha cota de rebeldia. Também saio sem sutiã na rua. A diferença é que o meu tamanho 50 de busto exige blusas justas, daquelas que seguram, estruturam e dão sustentação. O que ainda me causa um choque térmico no cérebro são as blusas soltas, fluidas, onde se vê o contorno real dos seios e os bicos enrijecidos pelo vento. Isso, confesso, ainda me causa estranheza.

Mas, como já disse, o filtro é meu. É da minha geração, que teve uma criação profundamente pudica. No entanto, se há um lado maravilhoso nos Millennials, é a nossa capacidade de adaptação. Nós moldamo-nos, compreendemos e abraçamos as revoluções sociais que os mais jovens trazem para as ruas. Nós questionamos os nossos próprios preconceitos automáticos.

Por isso, mesmo com a minha cabeça ainda a tentar processar o cenário, eu celebro. Um viva aos mamilos livres, soltos e sem amarras!

O Passaporte do Amor entrou em modo sobrevivência versão soft

domingo, 21 de junho de 2026


 Tela em branco, bate um desespero porque a ideia não vem. 

O Passaporte do Amor vai precisar ficar em segundo plano, pois: prioridades da vida adulta. 

Os pretendentes, que foram alçados a categoria de "conversantes" estão dispersos, parados e distantes. 

E minha energia para ser - e me manter - interessante está perto do nulo. 

Modo sobreviência por aqui, mas em uma versão soft, porque o modo sobrevivência verdadeiro é punk, aterrorisante e mal acabei de sair dele. Não pretendo voltar. 

Fato é que preciso priorizar outros aspectos da minha vida e não tenho energia sobrando para gastar com homens, conversas, dates, pensar em look, maquiagem. 

E, principalmente estou farta de superficilidade, de desejarem a Gilda. 

Quero poder ser eu, pedir colo, abraço, ser vulnerável. 

A Gilda é um espetáculo estético que dá trabalho para manter, e o meu estoque de paciência faliu. Cansei de performar o mistério e a leveza que o mercado dos afetos exige. Quero o direito ao avesso, à calça de moletom, ao cabelo em transição e ao cansaço estampado nos olhos sem ter que pedir desculpas por não ser um feed perfeito do Instagram.

O amor vai ter que esperar na sala de embarque. Se for de verdade, não se importa de pegar o próximo voo.

Por enquanto, o meu único passaporte carimbado é para dentro de mim mesma. É o meu colo, o meu silêncio e a minha própria farda que vão me salvar. Vou só ali respirar, longe das notificações e perto do que é real.


O caos no Cais do Sodré

quinta-feira, 18 de junho de 2026

Era sexta-feira e eu só queria que o expediente de trabalho acabasse logo. Eu tinha um plano perfeito para o meu final de tarde de "sextou": comprar algumas cervejas no Pingo Doce, uma azeitona (tal e qual os locais) e fumar quantos cigarros me apetecesse, admirando a paisagem com Olivia Rodrigo no ouvido.

Ainda havia planeado uma caminhada de 18 minutos do trabalho até a estação de comboios de Carcavelos, pois estou firmemente no projeto de ficar magra & gostosa. E assim fiz! Suei para um caralho, mas cumpri o objetivo com louvor.

Quarenta minutos depois, eu estava no Pingo Doce do Cais do Sodré a comprar os ingredientes do meu fim de tarde especial: quatro Super Bock pequenas e um frasco de azeitonas sem caroço. Fui à procura de um spot para me acomodar e curtir as ondas do Tejo a quebrar na mureta.

Fui muito feliz ali. Senti o prazer de concretizar um planeamento feito desde o início da manhã, na companhia da minha cervejinha e do meu cigarrinho. Cheguei até a emprestar o meu isqueiro a um gringo gato que me disse um “thank you”. Eu, numa fluência invejável (só que não), respondi: “you’re welcome”. Senti-me dentro de um filme de Hollywood. Ganhei até um sorriso e uma piscadela quando ele se estava a ir embora — de mãos dadas com a namorada, claro. Lisboa tem dessas coisas. Ouvir várias línguas seja onde for — na rua, no mercado, no metro ou no comboio — faz com que nos sintamos dentro de uma sociedade realmente globalizada.

Decidi que a terceira cerveja seria o limite, pois a vontade de fazer xixi começou a dar sinais logo ao final da segunda. Dali para a frente, foi só para trás.


O Sufoco

Terminei a última latinha já a sentir a bexiga bem apertada. E quem conhece o Cais do Sodré sabe: ali não há casas de banho públicas. Levantei-me a correr, procurando um canto na esperança de encontrar uma salvação, mas nada. A bexiga apertava cada vez mais e o pânico instalou-se: não vou conseguir segurar!

Corri para a estação de barcos, por onde havia passado outro dia, e encontrei um WC. Pago, claro! Acontece que eu não tinha dinheiro em espécie. Nessa altura, já sentia algo a escorrer pelas minhas pernas. Pensei: Deus, por favor, não me deixes mijar nas calças. Mas parece que Ele estava meio ocupado com causas mais urgentes do que a minha. O que era uma gota virou uma mini corredeira que chegou a deixar um pingo no chão, mesmo perto do meu sapato, denunciando a minha situação apocalíptica.

Corri desesperada para encontrar um ATM. Nessa hora, o vazamento já estava sem controlo e, para melhorar, a máquina tinha fila! Senhor! A calça já era. Estava toda molhada na frente. Menos mal que era preta e não aparecia tanto. Talvez um olhar mais atento pudesse notar, mas como as pessoas aqui estão sempre a correr apressadas, duvido que alguém tenha percebido.

Enfio uma nota de 10 euros na máquina que liberta o acesso ao WC. A máquina demora uma eternidade a dar as moedas de troco e eu ainda precisei de esperar que alguém viesse abrir manualmente a porta para mim. Pensa num sufoco. Tentei trançar as pernas para, de alguma forma, conter o dano, mas o vazamento silencioso continuava.

É, amores, depois dos 40 a bexiga já não é a mesma!

Entro na casa de banho e ainda tinha uma pessoa na minha frente e duas lá dentro que pareciam ter morrido na cabine, de tanto que demoraram. Quando finalmente chegou a minha vez, quase não consegui sentar-me na sanita para despejar o que pareciam os litros de cerveja que havia tomado. E relembro: foram apenas três latinhas pequenas. Um caos!

A Queda

E acham que acabou? Ainda teve a volta no metro.

Para mim, eu não estava bêbada, nem me consideraria “alegrinha”. Mas, aparentemente, a minha mente e o meu corpo estavam em total desalinho. Nos últimos degraus da escada, antes de entrar na zona de validação do metro, caí que nem uma jaca podre.

E quem disse que eu conseguia levantar-me? Contei com a ajuda de uma alma caridosa, uma senhora que praticamente teve de me alavancar do chão, porque acho que o meu próprio corpo decidiu ficar ali tombado, mortificado com a vergonha da situação. Não tenho ideia do que houve, mas o meu pé derrapou nos últimos degraus — talvez molhado pelo xixi da odisseia anterior — e fui parar à lona.

Sabe vergonha? Eu sou profissional a passar!

Agora perguntam-me se aprendi a lição e se nunca mais vou fazer isso? Pois claro que vou repetir! Porque foi um dia incrivelmente fantástico que eu amei viver. Com um melhor planeamento e algumas moedas de 1 euro no bolso para o WC, irei repetir a dose assim que possível.

Porque sou louca? Não. Porque estou viva, e experiências boas ou ruins fazem todas parte do que é viver.

O Efeito Dua Lipa: Porque é que todas queremos manifestar um Callum Turner?

domingo, 7 de junho de 2026

 


A internet entrou em polvorosa nas últimas semanas com os rumores de que a cantora Dua Lipa e o ator Callum Turner teriam oficializado a sua união numa cerimónia íntima em Londres. Casados ou não, a verdade é que o mundo não consegue parar de olhar para eles. Toda a gente quer manifestar um amor como o da Dua Lipa.

Quem é que viu as imagens deles a dançar, apaixonados e alheios ao mundo sob a Torre Eiffel, em Paris, e não suspirou por ter algo assim na vida? Ali, sob os holofotes, eles parecem viver num universo particular de cumplicidade. E a teoria que circula nas redes sociais é linda: ela teria manifestado este romance perfeito com a música Training Season, lançada em 2024, o mesmo ano em que o relacionamento se tornou público.

Eu mesma tenho os meus encontros casuais, onde apenas os contactos físicos imperam. Gosto de sexo e também gosto da liberdade do casual. Mas, no fundo, sou uma tola romântica. Já fiz, inclusive, uma Carta Aberta para o Amor confessando que quero alguém que me escolha todos os dias e me coloque em primeiro lugar na sua vida. Porque a verdade é esta: não ter alguém para abraçar no final de um dia de trabalho particularmente puxado e desafiador faz uma falta danada.

Agora mesmo, estou aqui há pelo menos três horas a ouvir Training Season em repeat, na esperança de manifestar o que a dona Dua Lipa tem. Olha só o que ela canta:

"Preciso de alguém que me abrace forte / Mais profundo do que eu jamais conheci / Cujo amor se pareça com um rodeio / Saiba exatamente como assumir o controle / Quando eu estiver vulnerável / Ele fale diretamente com a minha alma / (...) Será que você é alguém que pode ir além? / Porque não quero ter que te mostrar / Se essa pessoa não for você, então me fale / Porque a temporada de treinamento acabou."


Se eu gostaria de encontrar alguém assim? Muito!

Mas a verdade é que eu tenho um projeto de vida e um Passaporte do Amor para carimbar. Enquanto não encontro esse alguém que me cause vertigens e que saiba exatamente o que fazer sem que eu precise de lhe dar um manual de instruções, vou seguindo o meu roteiro. Vou me divertindo — e, às vezes, nem tanto — com os homens errados.

Dou o vácuo aos cretinos, coleciono histórias e sigo em frente. Afinal de contas, no meu mundo, tudo é matéria. Tudo é pela pauta!

O Encontro Que Ficou No "E Se"

quinta-feira, 4 de junho de 2026

O céu de Lisboa ameaçava desabar cinzento sobre as colinas, naquele tipo de feriado que convida a um recolhimento quase obrigatório. No papel, o plano parecia saído de um guião de romance europeu moderno: um encontro com um neerlandês, daqueles que trazem na bagagem o conceito intrínseco de gezellig — o aconchego caloroso que os povos do norte usam para combater o inverno da alma.

Se a chuva caísse, o cenário estava desenhado. Teríamos fugido para a Estufa Fria, caminhando sob a melodia das gotas a bater na enorme cobertura transparente, perdidos entre plantas tropicais e caminhos de pedra, onde o som da água criaria o isolamento perfeito para duas pessoas se conhecerem. Ou talvez o destino tivesse sido o requinte histórico do Palácio Chiado, subindo a escadaria de mármore sob o olhar do leão dourado, partilhando um copo de vinho tinto enquanto o burburinho da sala camuflava as nossas primeiras confidências.

Poderíamos ter terminado a tarde no labirinto kitsch do Pavilhão Chinês, decifrando relíquias nas vitrines à meia-luz, ou folheando livros na Ler Devagar, na LX Factory, deixando que a reabilitação industrial e o cheiro a papel impresso servissem de pretexto para esticar a conversa até à noite. Eu teria levado aquele meu vestido vermelho, a maquilhagem impecável e o meu rasto de perfume abaunilhado — a minha armadura de sedução e identidade.

O cenário era perfeito. O roteiro, infalível. Mas este encontro nunca aconteceu.

Ficou guardado na gaveta das realidades paralelas, tudo porque faltou o ingrediente mais crucial de todos, aquele que nenhum guia turístico ou bar sofisticado consegue simular: os sparkles no estômago.

Às vezes, a vida adulta exige pragmatismo, mas o amor — ou a simples promessa dele — exige magia. Quando os sinais digitais começam a falhar, quando as fotografias se escondem em visualizações únicas e o mistério se transforma em desinteresse, a chama apaga-se antes mesmo de o fósforo ser riscado.

Para mim, os sparkles são o motor. É o frio na barriga que me faz desafiar o mau tempo, calçar os saltos e sair de casa disposta a entregar o meu tempo a alguém. Sem essa eletricidade miúda, qualquer Palácio vira apenas um monte de pedras antigas e a Estufa Fria torna-se apenas um lugar húmido.

Este date com o holandês não passou de um rascunho bonito. Será, para sempre, o meu "E se...". E está tudo bem. Porque no fim do dia, há uma beleza imensa em escolher ficar em casa, a salvo da chuva, fiel à minha própria intensidade, esperando pelo próximo encontro que, este sim, faça a minha barriga vibrar.

A Moda Como Armadura Emocional: Quando o Vestido é Escudo

terça-feira, 2 de junho de 2026


Há dias em que a vida exige mais do que a nossa pele consegue suportar. Dias em que a intensidade do mundo bate de frente com a nossa própria voltagem interna — e quem é artista, intensa, ou convive com os altos e baixos de uma mente bipolar, sabe exatamente que barulho esse impacto faz.

Nesses momentos, o armário deixa de ser sobre tendências e passa a ser sobre sobrevivência. A roupa vira ritual. Vira armadura.

Se olharmos para os palcos, a própria Florence Welch (da banda Florence + The Machine) faz disso a sua grande performance existencial. Ela já falou abertamente sobre como usa os seus figurinos — aqueles vestidos longos de seda, fluidos e dramáticos — para enfrentar os seus próprios demónios diante de milhares de pessoas. No palco, a fragilidade dela transforma-se em poder através do movimento daquela seda que dança com o vento. É a beleza usada como resistência.

No quotidiano, o mecanismo é o mesmo. Quando a mente tenta desabar, a escolha de um tecido, a força de uma estampa ou a estrutura de um corte imponente funcionam como um teto que construímos sobre nós mesmas.


A Seda que Protege a Alma

Para uma mulher que sente tudo em escala máxima, vestir um longo de seda não é apenas vaidade; é criar uma barreira tátil entre o seu caos interno e o julgamento externo.

  • O Toque: A suavidade da seda acolhe a pele nos dias de sensibilidade extrema.

  • O Movimento: A fluidez do tecido cria um espaço de respeito ao redor do corpo, uma presença que diz "eu estou aqui" antes mesmo de pronunciarmos a primeira palavra.

  • A Estética: O visual imponente funciona como um lembrete visual de quem manda no castelo, mesmo quando tudo por dentro parece estar em ruínas.

Unir moda, música e saúde mental é compreender que a forma como nos apresentamos ao mundo é a nossa primeira narrativa de poder. Quando a tempestade emocional vier, não se limite a resistir: escolha a sua melhor armadura, vista a sua intensidade e faça dela a sua arte.

E você? Qual é a peça de roupa que funciona como o seu escudo nos dias mais intensos?

Não existe date perfeito: Por que a perfeição é a maior mentira que nós contamos?

sábado, 30 de maio de 2026


Às vezes eu peco por idealizar demais, por buscar a perfeição. Talvez seja um traço do meu lado romântica incurável, mas a verdade é que a perfeição não existe. A vida é puro caos.

Levei um bolo hoje. O segundo do viking.

Já estava pronta, linda, me sentindo perfeita com o meu perfume raro — o Magnifique, da Lancôme, descontinuado em 2008 —, quando recebo a mensagem de que não iria rolar o date. Bom, pelo menos ele avisou dessa vez. Ontem, ele nem se deu ao trabalho; apenas sumiu e reapareceu horas depois.

Decidi que uma rejeição apenas não seria suficiente e fui atrás da segunda no mesmo dia. Ok, não era essa a minha intenção inicial, mas é como se fosse inevitável.

Fui para o Tinder decidida a usar a minha calcinha de renda preta (comprada por € 4 na Lefties) e joguei a isca para quem mordesse primeiro.

E apareceu ele: os "Olhos de Ressaca".

Se Capitu tivesse um irmão gêmeo com aquele mesmo olhar dúbio em que poderíamos nos perder, seria ele. Olhos de um verde que parece o mar em um dia agitado, nos convidando a entrar em suas profundezas para descobrir seus segredos, mas que, ao mesmo tempo, carregam uma certa doçura.

Ele me buscou onde eu estava. A essa altura, eu já estava "alegre" das cervejas que dividi com a minha nova roommate. Fomos para um motel que não deu certo, depois para um hotel que também não funcionou e, no fim das contas, paramos num lugar isolado e começamos a namorar no carro.

Mas, antes disso, o beijo já não tinha encaixado. Ainda assim, segui em frente, porque estava determinada a quebrar o meu jejum, com ou sem viking!

Acontece que, com sete anos sem uso, a larissinha "revirgina". Começou a doer e a sangrar como se fosse a primeira vez. O fato de ele ser bem-dotado também não ajudou muito. Enfim, tivemos de encerrar a brincadeira por ali.

O que vem depois que ele me deixa na paragem do autocarro para voltar para casa? O silêncio.

E aí vem a noia: "O que eu fiz de errado?", "Por que comigo?", "Será que foi porque sangrei?", "Estava muito apertada como ele disse?".

CÉUS! Por que tanta complicação com rejeição na minha vida?

Mas, pensando bem, não vejo isso como um erro meu. O que houve foi um encontro de urgências que simplesmente não se sintonizaram.

Tentei ser Gilda hoje nessa visita a Lisboa. Mas, no fim do dia, sou apenas a Jana.

Nota da Editora: Crônica escrita em 27/03, mas que ficou guardada nos rascunhos porque não tinha certeza se publicava. Foi meu segundo date na Europa, o primeiro com sexo. 

Carta aberta ao novo amor

sábado, 16 de maio de 2026

 

Quando me perguntam o que estou procurando no Tinder, para além dos carimbos no Passaporte do Amor e do Cardápio de Homens, no fim das contas eu quero romance.

Alguém que me busque em casa e me leve para jantar para “conversarmos mesmo para tentar se conhecer”, quero passeios para ver o pôr do sol à beira do Tejo, quero caminhadas silenciosas em parques onde cada um lê seu livro favorito.

Quero carinho, cafuné, abraços apertados que cabem o mundo.

Quero mãos dadas na rua.

Quero cafés da manhã em cafeterias icônicas.

Dormir de conchinha.

Sexo às 3 da manhã.

Quero sentir que estou vivendo em um filme de romance barato de Hollywood.

Quero ser emocionada sem sentir medo de assustar.

Quero poder ser eu mesma pela primeira vez na vida.

Quero não ser a Gilda e ser apenas a Jana.

Quero ligações de madrugada porque estava com saudades.

Quero poder ser eu sem ter que ficar me medindo.

Encontros aleatórios no teatro, no cinema, no Candlelight.

Quero sentir o sabor da doçura da vida de ver o mundo pelas lentes coloridas do amor.

Não falo de casamento, nem compromisso.

Mas sentir que a vida pulsa através de encontros que podem ser de alma ou não.

Quero sentir a brisa suave no meu rosto e uma paixão marota que me tira o sono e dá frio na barriga.

Não um objeto de desejo, não uma femme fatale!

Quero poder ser apenas eu e que o sortudo fique, que seja por um beijo ao luar.

 

 

O dia que eu encontrei o amor e perdi (porque deletei meu Tinder sem querer)

domingo, 10 de maio de 2026

 


Chega a ser irônico que depois de me sentir a Gildas em intermináveis conversas e várias línguas diferentes, quando finalmente o amor bate à porta em um homem lindo, maduro, que buscava também encontrar o amor verdadeiro no meio de amores líquidos do aplicativo e, por outra ironia ainda maior do destino, ao tentar acessar a plataforma pelo PC para ser mais fácil conversar com ele, pois queria muito me conectar, eu excluí a minha conta e o homem lindo que vinha com a promessa de passeios sob a luz do luar.

Foram breves momentos de conversa até o fatídico ato que me fez o perder para sempre.

Norueguês (olha mais uma bandeira para o Passaporte do Amor), arquiteto, mais velho que eu e um semblante sereno de quem sabe o que faz da vida. E só. Não tenho mais nada para me apegar. Apenas uma frustração retumbante.

Talvez o tal do amor não seja feito para mim, afinal.

Vejo como um sinal de que não era o momento de me apegar, pois acabei de voltar ao jogo do amor e acho que ainda tenho muito a experimentar e bandeiras a colecionar.

Vou desistir? Jamais! Minha carta aberta foi escrita e lançada aos Deuses do Universo, que se forem generosos, devem atender meu singelo pedido de uma conexão profunda para além do objeto de desejo.

Hoje fico no e se, no quase.

O amor que quase foi.

Pode ser que não nos conectássemos, que tivéssemos valores totalmente opostos, que a química não rolaria. Enfim, nunca saberemos.

Por hoje fico com a lição, se gostou, já troque contatos logo para não correr o risco de o universo te dar uma rasteira e você ficar sem nada.

 

O Fenómeno Virgínia: Como construir um império de 160 milhões com base no "Vrau"

quinta-feira, 7 de maio de 2026


Enquanto muitas marcas tradicionais de luxo ainda tentam manter uma distância mística do consumidor, Virgínia Fonseca fez o caminho oposto: ela derrubou a quarta parede. O resultado? Um faturamento de 160 milhões de reais em uma única live de 12 horas. Mas engana-se quem pensa que o sucesso é fruto apenas de dancinhas no TikTok. Existe uma engenharia de proximidade que toda empreendedora (e escritora) deveria estudar.

1. A Intimidade como Mercadoria

O grande trunfo da Virgínia não é a qualidade técnica de um produto (embora isso importe), mas a narrativa de bastidor. O público não compra apenas um perfume; ele compra a participação na rotina de quem o criou. Ela transformou a própria vida em um reality show ininterrupto, onde o produto é um personagem orgânico.

A lição: Para quem escreve ou empreende, a pergunta é: quão humana é a sua marca? As pessoas conectam-se com processos, erros e o "fazer", muito mais do que com o resultado final perfeito e estático.

2. O Gatilho da Comunidade (O "Vrau" como Dialeto)

Virgínia criou um dialeto próprio. O "Vrau" e os jargões que ela usa funcionam como um aperto de mão secreto. Quem usa, sente que pertence a um grupo. É a criação de uma tribo digital que se sente validada pelo sucesso dela.

A lição: Qual é o seu "Vrau"? Qual é a linguagem única que você usa nos seus livros ou na sua consultoria que faz o seu cliente sentir: "Ela fala a minha língua"?

3. A Estratégia da "Visionária das Lives"

As lives da Virgínia são maratonas de vendas disfarçadas de entretenimento. Ela usa a urgência e a escassez de forma magistral. É o famoso: "É agora ou nunca". Ela domina a atenção do público em um mundo onde a atenção é o recurso mais escasso e caro que existe.

O que as Escritoras e Empreendedoras podem aprender?

Muitas vezes, nós, que viemos de um background mais acadêmico ou do mercado de luxo tradicional, temos medo de parecer "expostas" ou "populares demais". No entanto, Virgínia nos ensina que autoridade não precisa ser sinónimo de distância.

  • Humanize o Intelecto: Se você é escritora, mostre a folha em branco, o café frio, a dúvida.

  • Venda a Jornada: Não apareça apenas com o livro pronto; venda a história de como ele está sendo escrito.

  • Crie Urgência: Valorize o seu tempo e o seu conhecimento. Se você tem uma mentoria ou um produto, não tenha medo de dizer que ele é exclusivo.

O império de 160 milhões não foi construído apenas com curtidas, mas com uma compreensão profunda da psicologia do pertencimento. Virgínia entendeu que, no fim do dia, todos queremos fazer parte de algo que está a dar certo.

Jana Indica: Inside the Dream - A Alquimia por trás do J’adore L’Or

terça-feira, 5 de maio de 2026


Se existe algo que me fascina tanto quanto uma boa história escrita, é a narrativa invisível de um perfume. Recentemente, mergulhei no documentário "Inside the Dream" (Prime Video), e preciso compartilhar essa experiência com vocês.

A produção abre as portas da Maison Dior para nos mostrar os bastidores de um dos maiores desafios do mundo da perfumaria: como reinventar um ícone? O protagonista dessa jornada é ninguém menos que Francis Kurkdjian, o novo Diretor de Criação de Fragrâncias da casa.

Uma Viagem Sensorial

O documentário nos leva para além dos escritórios luxuosos em Paris. Acompanhamos Francis em uma busca incessante pela essência perfeita:

  • Dos jardins históricos do Château de La Colle Noire, em Grasse;

  • Aos campos vibrantes de jasmim na Índia;

  • Até o Japão, onde a milenar cerimônia Kodo revela o lado mais espiritual do olfato.

É um registro íntimo sobre pressão, dúvida e a busca pela beleza absoluta. Vemos Kurkdjian pesquisando a vida de Christian Dior para entender o passado e, assim, moldar o futuro do J’adore L’Or. A apresentação final na Escola Nacional de Belas Artes de Paris é o clímax de um ano de obsessão criativa.

O Olhar da Jana

Sendo uma apaixonada pelo J'adore (já foi meu perfume assinatura), poder acompanhar esse processo e a pressão para desenvolvimento de uma nova versão de uma fragrância que já é icônica há mais de 20 anos e poder mergulhar em um das mentes mais brilhantes da perfumaria (vou fazer um post somente sobre Kurkdjian), foi uma experiência singular! Passar pela França, India e Japão em busca de cheiros que pudessem deixar o J'adore L'Or único foi sentir a fragrância nascendo. Incrível! 

Vale a pena assistir?

Para quem trabalha com beleza, para quem ama moda ou simplesmente para quem aprecia o processo de criação de qualquer obra de arte, Inside the Dream é obrigatório. Embora o filme flerte com o storytelling publicitário da marca, a sensibilidade de Kurkdjian e a fotografia das paisagens fazem cada minuto valer a pena.

Onde assistir: Prime Video Duração: 1h 34min de pura inspiração.